A filosofia na prática (4.o de uma série): como Montaigne achava que as crianças deveriam ser educadas. Por Paulo Nogueira

"Carnation, Lily, lily, Rose", John Singer Sargent
“Carnation, Lily, lily, Rose”, John Singer Sargent

Como educar os filhos é um tema que ocupou os filósofos desde sempre. A humanidade parece não ter progredido tanto assim nessa questão, mas não foi por falta de reflexão dos sábios da Antiguidade. Alguns povos antigos bem-sucedidos na educação das crianças foram objeto de admiração dos pensadores. Xenofonte, discípulo de Sócrates, fala dos persas. Eles se preocupavam mais em ensinar as virtudes às crianças do que as letras e as ciências. Platão, outro pupilo de Sócrates, aliás o maior deles, também fala dos persas. Os garotos persas aprendiam a ser sinceros, justos, valentes, antes de mergulhar na trigonometria ou na gramática.

Também a mocidade de Esparta recebia esse tipo de instrução. Os jovens eram preparados para a vida. Exemplos do que lhes era ministrado: como suportar as adversidades ou como controlar os desejos. Perguntaram a um pensador grego o que as crianças deveriam aprender. Respondeu ele: “O que terão de fazer quando crescerem”. As lições gregas sobre como criar a juventude encantaram e comoveram, tempos depois, Montaigne, filósofo francês do século XVI. Na sua obra magna, Os Ensaios, Montaigne lembra, com admiração reverente, que os gregos ensinavam suas crianças a “defender-se contra as tentações da volúpia e encarar com coragem os revezes da sorte ou a morte que nos ameaça”. A pedido de uma amiga grávida, Condessa de Gurson, Montaigne escreveu nos Ensaios um capítulo sobre a educação. “A criança não deve ser educada junto aos pais. A sua afeição natural relaxa-a demasiadamente. O resultado é que a criança não está pronta para a aventura da vida”. Montaigne referia-se a uma praga que, nos dias de hoje, é conhecida como “superproteção”. Queremos poupar os filhos dos dissabores da vida, mas o resultado é que nós os prejudicamos: a superproteção os torna inseguros, medrosos e sem confiança.

Palavras de Montaigne à Condessa interessada em como criar o filho que chegava:

→ “O silêncio e a modéstia são muito apreciáveis na conversação”.

→ “Deve-se ensinar o menino a mostrar-se parcimonioso em seu saber, quando o tiver adquirido; a não se irritar com tolices e mentiras ditas em sua presença. Que se contente em corrigir a si próprio e não aos outros. Que evite as atitudes indelicadas de dono do mundo. Que o ensinem sobretudo a ceder numa discussão ante a verdade, logo que a enxergue, surja ela dos argumentos do adversário ou de sua própria reflexão. Teimar e contestar obstinadamente são defeitos das almas vulgares, ao passo que voltar atrás, corrigir-se, abandonar sua opinião errada no ardor da discusão, são méritos raros, das almas fortes e dos espíritos filosóficos”.

→ “Convém ensinar a criança a prestar atenção a todas as pessoas que a cercam. As próprias tolices e fraquezas dos outros nos instruem. Observando as maneiras de todos, o jovem será levado a imitar as boas e desprezar as más”.

→ “Habitue a criança ao suor e ao frio, ao vento, ao sol. Tire-lhe a moleza e o requinte no vestir, no dormir, no comer e no beber”.

Montaigne pregava, enfim, inspirado nos exemplos que a história lhe oferecia, uma educação cuja validade é eterna, tamanha a sabedoria alojada dentro dela.

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