A Folha sai da lata e se apresenta como isentona, mas não engana o robô

Atualizado em 19 de fevereiro de 2026 às 11:56
Redação da Folha de S.Paulo. Foto: reprodução

Esta é a manchete da Folha de São Paulo sobre a própria Folha, abrindo a lata e tentando se mostrar como não é:

“Folha completa 105 anos e reafirma compromisso com jornalismo crítico, pluralista e apartidário”.

Logo abaixo da manchete, essa linha de apoio que promete muito debate chato:

“Jornal segue relevante também porque nunca teve medo de abraçar inovações tecnológicas, como é o caso da inteligência artificial”.

E agora? Os assinantes da Folha estão pagando por textos de colunistas escritos por robôs. O jornal já admitiu e uma colunista, Natália Beauty, já confessou.

Natália diz que ela pensa e o robô escreve por ela. O errado seria se o robô pensasse e ela escrevesse.

A Folha também inovou na ditadura oferecendo suas camionetes peruas para o transporte de agentes da repressão e presos políticos.

Aguardem as próximas inovações do jornal isentão que foi cúmplice da ditadura desde o começo do golpe em 1964.

Robôs substituindo jornalistas. Foto gerada por IA

FALA O ROBÔ
Como a Folha decidiu exaltar a Inteligência Artificial, para dizer que está sempre conectada às inovações, consultei o Gemini, do Google, sobre um assunto específico.

Queria saber o que um robô tem a dizer hoje sobre o uso comprovado de veículos da Folha para transportar agentes do governo e presos políticos durante a ditadura.

Escrevi apenas o que segue abaixo, com três pontinhos no final:

A Folha usava suas camionetes na ditadura para…

Essa foi a resposta do Gemini, que transcrevo na íntegra, sem mexer em nada do texto:

“Com base em investigações, documentos de órgãos como o CAAF/Unifesp e depoimentos de ex-agentes, a Folha de S.Paulo emprestou camionetes/caminhões de distribuição de jornais para o aparelho repressivo da ditadura militar (1964-1985), especificamente para a Operação Bandeirante (Oban) e DOI-CODI. O objetivo do empréstimo desses veículos incluía:

Disfarce em Operações: Os caminhões baú de distribuição da Folha eram usados como cobertura para agentes da repressão atuarem nas ruas sem despertar suspeitas, permitindo a aproximação de opositores do regime.

Logística de Prisões e Sequestros: Os veículos facilitavam a prisão, o sequestro e o transporte de militantes da esquerda armada, muitas vezes resultando em desaparecimentos e assassinatos.

Ciladas: Relatos indicam que os veículos foram usados em armadilhas para atrair opositores, com policiais saindo de dentro das camionetes para efetuar prisões.

O ex-agente de informação do Exército Marival Chaves do Canto confirmou que os carros da empresa eram usados sistematicamente na cobertura de encontros. A colaboração, segundo pesquisadores, era conhecida pela direção do grupo à época.

Nota: A Folha de S.Paulo, em editoriais passados (como em 2018), justificou o apoio ao golpe de 64 como um erro, mas questiona a sistematicidade do apoio material denunciado por pesquisadores”.

(O Gemini remete para vídeos no Youtube e ao final para uma reportagem da Agência Pública sobre essa pauta, com link que está na área de comentários. Há, além dessa reportagem, uma vasta documentação sobre a cumplicidade da Folha com os militares e os civis que os sustentavam. Os robôs podem ajudar.)

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/