‘A França está despreparadíssima, fiquei até assustada’, diz brasileira com sintomas de coronavírus

Mariana Diamantino teve todos os sintomas, mas não póde fazer o teste. Ela conta ter se senido desamparada e sem as informações necessárias sobre seu estado de saúde. © Arquivo pessoal

PUBLICADO NA RFI

Brasileiras que moram na França usam um grupo no Facebook para desabafar e para relatar o sentimento de medo e desamparo quando apresentam os sintomas do coronavírus e não são testadas. A RFI conversou com várias delas, que dizem se amparar umas nas outras, além de falar com a família e amigos no Brasil, para lidar com a situação em um país onde apenas casos muito graves são testados.

M. O. é estagiária em um hospital na Bretanha (noroeste da França) e diz ter certeza de que teve o Covid-19, embora não tenha sido testada. “Uma enfermeira da minha equipe foi diagnosticada positiva e eu fui contatada, pediram para verificar os sintomas duas vezes por dia e, se tivesse sintomas, ir ao médico. Neste momento, me disseram para só ligar para o Samu se estivesse morrendo”, conta.

“Tive febre, dor de garganta, coriza e dificuldade de respirar. Eu acho que era positiva porque nunca tenho febre. A última vez eu tinha 4 anos. O sinal da febre foi esclarecedor. Eu não fui a única. Outras pessoas desenvolveram poucos sintomas, mas existem pessoas na unidade em que eu trabalho que tiveram sintomas graves”, relata, acrescentando que no hospital onde trabalha, tem pacientes sintomáticos que não foram testados porque não há testes disponíveis.

“A única teleconsulta que eu tive foi com o Enfermeiro Virtual do site brasileiro CoronaBr, que confirmou a minhas dúvidas, mas não tive o diagnóstico e acho que nunca terei, porque a França está desprepardíssima, fiquei até assustada quando vi a situação”, conclui.

A doutoranda em direito Mariana Diamantino, 30, mora em Paris e também teve todos os sintomas, assim como seu namorado, de 32 anos. Ligou para o Samu duas vezes. Na primeira vez, estava com todos os sintomas do coronavírus, mas a respiração estava normal. Levou 3 horas para conseguir falar com um médico, que lhe disse que era uma gripe, mas pediu que ficassem confinados. “Achei muito irresponsável ele dizer isso, pois quem tem uma gripe não precisa ficar de quarentena. E isso foi antes de o Macron decretar o confinamento”.

Na segunda vez, alguns dias depois, ela estava com dificuldade respiratória e conseguiu atendimento por telefone em menos de 10 minutos. Desta vez, o médico que a atendeu confirmou que deveria tratar-se de coronavírus.

“Eles falaram que poderiam enviar uma ambulância para gente ir para o hospital, mas que seria arriscado pois estaríamos mais expostos ao vírus. Disse para esperar 1h. Se eu continuasse a respirar com dificuldade, eu poderia ligar. Aí a crise passou e não tive outro episódio”, conta.

Mas, mesmo conseguindo falar com um médico em tempo hábil, ela conta ter se sentido desamparada. “A gente sentiu que não houve informações satisfatórias do sistema de saúde, a gente teve que buscar tudo por nós mesmos. Gostaríamos de ter tido um médico para nos dizer que a gente não estava no grupo de risco e que não corríamos risco de vida. Mesmo quando tive a crise respiratória, o médico não nos explicou muito o que estava acontecendo, ele só disse o mínimo. Minha sorte é que uma das minhas melhores amigas é médica (no Brasil) e foi com ela que a gente conseguiu se sentir menos angustiado.”

Outra participante do grupo desabafou: “Pior eu, que fui bater no hospital com todos os sintomas, o médico me examinou, confirmou que provavelmente era o coronavírus mas não me testou e me mandou de volta pra casa com una receita pra comprar máscara cirúrgica na farmácia. E não tem em nenhum local pra vender. Estou achando a gestão dessa epidemia simplesmente péssima”.

M. B., 35, que trabalha em uma escola primária na região metropolitana de Paris, teve mais sorte. A única do grupo que relata ter sido testada (o resultado foi positivo), ela só conseguiu fazer o teste porque chegou ao hospital quase desmaiada, com muita falta de ar. “Fiquei em estado grave e fui levada de ambulância ao hospital onde fui diagnosticada”, conta ela, que não fuma, não bebe, pratica esporte e é “teoricamente saudável”, como se descreve.

M. B. relata que foi sua médica que a salvou. Ela conseguiu uma consulta virtual no terceiro dia dos sintomas: “Estava em uma teleconsulta com a minha médica e, ao ver que eu não conseguia respirar, mal conseguia falar e que meus batimentos cardíacos não pareciam bem, ela chamou uma ambulância para mim e ficou me acalmando até a ambulância chegar. Cheguei ao hospital de manhã e fui liberada no final do dia, já com o resultado do exame”, diz ela, que só foi liberada porque estava conseguindo respirar sozinha e porque tinha como se isolar por 14 dias do marido e dos filhos.

Ela está hoje no oitavo dia da doença, que os médicos disseram ser o pico do vírus. “Eles me disseram que é quando a doença já feriu o pulmão inteiro. Então, se eu conseguisse chegar neste dia sem muito alarme, o restante dos dias seria mais tranquilos. Hoje é meu oitavo dia e me sinto realmente uma vencedora. Dois dias sem febre e já consigo falar devagar sem perder o fôlego”, conta à reportagem da RFI. Ela disse ter ficado bastante satisfeita com o atendimento e o acompanhamento que vem tendo.

Em Toulouse (sudoeste), Simony Pires, 46, disse ter pegado o coronavírus de uma amiga, antes do confinamento. “Depois de muita dor no corpo e sintomas que pareciam uma dengue, minha amiga, de 38 anos, foi diagnosticada, mas sem o teste. Isso foi antes do confinamento, e o médico a viu pessoalmente, mas não pôde testá-la”, diz.

Segundo Simony, o marido da amiga também foi contaminado e foi diagnosticado por telefone. “Ligamos para o Samu quando ela começou a ficar muito mal e disseram que só ligássemos se ela tivesse falta de ar. Ela teve febre por uma semana inteira. Quando eu comecei a ter os sintomas, muita dor no corpo, febre, coriza, etc. nem tive tempo de ir atrás de um médico, pois sabia que eles não iriam fazer nada e eu tenho uma filha deficiente, não tinha com quem deixa-la”, relata ela, que era técnica de enfermagem no Brasil, mas na França trabalha com em restaurante.

A atriz Daniela Lemes, 31 anos, relata sua experiência: “Há pouco mais de duas semanas, tive uma noite de sono atípica, senti muitos calafrios e acordei com uma dor no fundo dos olhos, que imediatamente associei a uma sinusite. Entretanto, com o passar dos dias os sintomas foram piorando, vieram dores fortíssimas pelo corpo, muita tosse, diarreia, vias aéreas ressecadas, perda total do olfato e do paladar e um cansaço muito grande”.

“Com isso, decidi ligar no número disponibilizado pelo governo. Como a demanda está altíssima, esperei uma hora e meia para ser atendida por um médico. Ele disse que todos os meus sintomas correspondiam ao coronavírus e que não havia a necessidade de se fazer um teste, até porque eles só estavam testando casos graves ou grupos de risco. Fui orientada a ligar novamente somente se sentisse falta de ar, o que não aconteceu, ainda bem”, continua.

“Hoje, tendo passado 19 dias desde o primeiro sinal, já me sinto bem melhor, mas ainda tenho tosse, cansaço e meu intestino ainda não voltou completamente ao normal. Vale destacar que sou jovem, nunca tive nenhum problema de saúde e, ainda assim, posso dizer que está sendo uma experiência bastante difícil, tanto do aspecto físico, quanto do emocional”, acrescenta, dizendo que o seu companheiro, de 32 anos, também teve os sintomas.

Assim como Mariana, Daniela se sentiu desamparada ao não poder fazer o teste, memo apresentando todos os sintomas. “Quando me falaram da impossibilidade de fazer o teste, eu compreendi por dois motivos: primeiro, porque não mudaria em nada os meus sintomas e meu possível tratamento, segundo, porque sei que o momento é muito delicado e os hospitais estão sobrecarregados. Entretanto, me agonia saber da possibilidade do meu caso, e de tantos outros, não serem contabilizados”, lamenta.

“Eu me senti bastante fragilizada, emocionalmente falando, porque sei que em uma situação normal eu poderia ir a um hospital, fazer exames, ter a certeza que meu corpo está reagindo bem. Por outro lado, compreendo que neste momento difícil o atendimento deva ser prioritariamente para os casos graves”, contemporiza.

Haveline Monteiro, 35, é hipertensa e também diz compreender a situação: “Eles estão fazendo o máximo que podem nos hospitais, mesmo com falta de material”.

Sobre o seu caso, conta que ela e o marido foram “diagnosticados por telefone”. “Liguei para uma médica que faz consulta por telefone e ela disse que temos 99% de chances de estarmos com o vírus. Não fomos testados. Não sei ao certo como lidar, não estamos com falta de ar, mas eu me sinto cansada, sonolenta e com vontade de vomitar o tempo todo. Além disso, perdemos o olfato e o paladar”. Haveline acredita que, pelo fato de ser hipertensa, conseguirá uma prescrição médica para fazer o teste, mas não sabe quando.

O Consulado do Brasil em Paris foi consultado e disse ter recebido apenas uma notificação de brasileiro contaminado na França. Nenhuma morte foi registrada até o momento.

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