A fraude da “Times Square paulistana” de Tarcísio e Nunes: 4 telões e mobiliário básico

Atualizado em 24 de abril de 2026 às 17:31
Tarcísio apresenta a “Times Square paulistana” feita com IA

Apresentado como a “Times Square paulistana”, o projeto do Boulevard São João, defendido pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB), é mais uma fraude para favorecer a especulação imobiliária.

O “complexo” prevê a instalação de quatro painéis de LED no centro de São Paulo em troca de intervenções urbanas avaliadas em cerca de R$ 6 milhões.

“Será que o estado e a cidade mais ricos do país precisam dessa esmola em troca de propaganda de BETs no centro? Se Tarcísio e Nunes fossem tão bons de negócio quanto dizem, deveriam ter feito algo muito melhor”, escreveu o vereador Nabil Bonduki (PT) no X.

A proposta ganhou visibilidade após vídeos com imagens geradas por inteligência artificial sugerirem uma transformação incrível da região, mas o projeto aprovado é ridículo. Matérias laudatórias na imprensa terminaram o serviço sujo de vender gato por lebre.

Na prática, o plano autoriza telões em quatro edifícios — Cine Paris República, Edifício Herculano de Almeida, Galeria Sampa e Edifício New York — além de projeções em um quinto prédio.

As contrapartidas envolvem a conservação de pontos como a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a estátua da Mãe Preta e o Relógio de Nichile, além de “intervenções” no eixo da Avenida São João.

Também está prevista a instalação de mobiliário urbano: 73 bancos de madeira tropical certificada, distribuídos em diferentes modelos, e 30 lixeiras com estrutura metálica e capacidade de cerca de 45 litros.

O projeto inclui ainda ações de paisagismo, com foco em arborização urbana, e oficinas de zeladoria do patrimônio cultural, em uma área aproximada de 30 mil metros quadrados entre o Largo do Paissandu e a Praça Júlio de Mesquita. Em troca, a empresa responsável poderá explorar publicidade nos telões, limitada a 30% do tempo de exibição, conforme as regras da Lei Cidade Limpa.

O telão da “Times Square paulistana” na vida real

A participação do estado, segundo Tarcísio, será concentrada na segurança, com “reforço policial” na região. Talvez em parceria com o PCC.

Além da diferença entre o material divulgado e o que foi aprovado, o modelo adotado é ultrapassado. A verdadeira Times Square, em Nova York, virou uma cracolância.

Era uma área degradada nos 60 e 70, marcada por criminalidade e prostituição, até sofrer uma reestruturação nos anos 1990 com políticas de segurança e fechamento de estabelecimentos ilegais. Era o auge da “teoria da janela quebrada”, do prefeito Rudy Giuliani — sim, o mafioso que viraria advogado de Donald Trump.

Nos anos 2000, a região foi redesenvolvida com incentivo a grandes redes comerciais, processo que ficou conhecido como “disneyficação”. Após a pandemia, desandou. Segundo o ex-comissário de polícia de Nova York Raymond Kelly, houve “muitas mudanças para pior” na região, com aumento de problemas de segurança e desordem urbana.

A proposta de replicar esse modelo urbano, hoje, é deslocada no tempo e servirá apenas para destruir de vez o centro da cidade, entregando-o às mesmas construtoras que estão desfigurando bairros históricos. São Paulo não merecia essa dupla.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.