A guerra de Marco Antonio Villa e da TV Cultura com as bicicletas

O futuro de São Paulo, na distopia do professor Villa
O futuro de São Paulo, na distopia do professor Villa

 

Um amigo jornalista me contou que a TV Cultura de São Paulo tenta recuperar seus carros velhos à moda cubana: mecânicos pegam pedaços de vários deles, juntam e montam um frankenstein. Volta e meia a carroça é encontrada parada numa esquina, imprestável.

Não é diferente com o jornalismo. Posto abaixo um vídeo com uma reportagem sobre a inauguração de ciclovias em SP.

Há falta de planejamento para projetos tão ambiciosos, diz o narrador. Nem todo o mundo se sente seguro para pedalar. Populares reclamam. Não se respeitam as regras. Há invasão de motos. Um “consultor de trânsito” não considera a capital preparada. É uma onda internacional que está sendo copiada, avisa ele.

O horror, o horror.

E então entra o historiador Marco Antonio Villa, um comentarista da Guerra Fria transportado para a Marginal do Tietê do século 21. Para Villa, “é uma ideia boba e daqui a pouco estamos na revolução cultural do Mao Tsé-Tung (??). Não tem planejamento nenhum. (…) Isso não resolve absolutamente nada”.

Airton Soares, que deveria ser um contraponto, é uma escada. A falta de conhecimento do assunto é assombrosa. Enquanto Soares fala, Villa, ao seu lado, faz “tsc tsc”, negaceia olhando para a mesa, balança o corpo. Se pudesse, daria um pescotapa no colega de bancada. “[O prefeito] é incapaz, incompetente, irresponsável”, decreta.

Não se ouviu um mísero ciclista. Um.

A catilinária de Villa ecoa, não por acaso, a do senador Aloysio Nunes, vice na chapa de Aécio Neves, que acusou a prefeitura de “esparramar ciclofaixas a torto e a direito”. É o mesmo samba.

Alguma sugestão? Nada. Depreende-se que geografia é destino e, dada a topografia paulistana, não há saída. Só o metrô, evidentemente, mas a malha irrisória não vem ao caso.

O divórcio da realidade ajuda a explicar por que a TV Cultura não existe. Uma nova pesquisa do Ibope em parceria com a ONG Nossa São Paulo aponta que o número de pessoas com carros em casa subiu de 52% em 2013 para 62%.

E que aumentou de 86% para 88% o percentual de gente a favor da construção e ampliação de faixas para bikes; 26% dos entrevistados afirmaram que “construção de ciclovias” e “mais segurança” (também 26%) são os principais fatores para a utilização delas como meio de transporte.

Para 70% dos entrevistados, o trânsito é “ruim” ou “péssimo”. “Poluição do ar” continua como sendo a questão mais grave para 94% dos consultados.

A meta de Haddad é chegar a 400 quilômetros de ciclofaixas. Há problemas em trechos. Cabe a ele explicar e corrigir. Cabe a quem tem bicicleta ocupar os espaços. Ainda não se atingiu nem a metade, mas o ritmo é intenso, para desespero da turma de Villa. A sorte dos paulistanos é que ela prega para o vento.

 

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