A hipocrisia do “Stalin matou foi pouco”. Por Luis Felipe Miguel

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Por Luis Felipe Miguel

Tenho um espasmo de irritação quando vejo essa frase ao final de postagens de pessoas de esquerda, indicando que é preciso ser mais duro contra o fascismo.

O neostalinismo propaga a lenda de que Stálin representa o antifascismo duro e puro.
Só que grande parte dos que Stálin matou foram líderes da revolução bolchevique, cientistas, intelectuais e artistas dedicados à construção do socialismo, militantes sinceros e trabalhadores honrados.
Se hoje um Stálin brasileiro chegasse ao poder, eu e você seríamos as vítimas mais prováveis dele. Guedes e Bozo estariam tranquilos, em Miami, tomando drinques tão coloridos quanto os quadros de Romero Britto e dando entrevistas em nome da “democracia”.

Stálin não matou para combater o fascismo – com o qual, aliás, não se furtou a buscar uma acomodação. Matou para consolidar um projeto pessoal de poder absoluto e desvirtuar a revolução da qual fora coadjuvante.

Por isso, também me incomoda o discurso de que “a oposição stalinismo vs. trotskismo” é um detalhe histórico, sem importância hoje.
Para começar, parte de uma dicotomia falsa. Grande parte da esquerda anti-stalinista – incluindo eu mesmo – não é, nunca foi, trotskista.

Dizer isso é uma tentativa de reduzir a questão a uma guerra de egos – Trótski contra Stálin – e elidir as questões importantes.
A mais importante delas: está em jogo que tipo de sociedade queremos edificar.

Uma que amplie a autonomia de todos ou uma que faça da repressão um valor a ser exaltado? Uma que veja no socialismo o aprofundamento da democracia ou uma que, em nome do socialismo, negue o exercício de todas as liberdades? Uma que reforce a igualdade e a direção coletiva ou uma que se entregue ao poder ilimitado de um indivíduo? Uma que valorize a vida humana e busque dar condições para que ela floresça ou uma que conte alegremente mortos aos milhões?

(O neostalinismo, que evita a idolatria aberta de Koba, refugia-se no falseamento do passado, por um lado minimizando os crimes de Stálin, por outro afirmando que a degeneração da revolução bolchevique era uma “necessidade histórica”. Mas o resultado líquido é o mesmo.)

A sociedade repressiva e hierárquica que o stalinismo apresenta como horizonte está a anos-luz de distância do mundo pelo qual eu luto. Julgar que a confluência parcial com os stalinistas, em pontos da agenda política atual, deve obscurecer as diferenças incontornáveis de projeto é como achar que a (hoje moribunda) “frente ampla” contra Bolsonaro devia fazer a esquerda calar seu projeto.

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