A homofobia de Benedito Ruy Barbosa já pouco importa. Por Leonardo Mendes

Benedito Ruy Barbosa
Benedito Ruy Barbosa

O autor/supervisor de Velho Chico, Benedito Ruy Barbosa, estava com a torneira aberta na festa de lançamento da nova novela da Globo e despejou sobre todos uma enxurrada de chorume.

Disse que odeia “história de bicha”, mas “nada contra”.

“Tenho dez netos, quatro bisnetos e tenho um puta orgulho porque são tudo macho pra cacete”.

É triste ver um bisavô tentando impor a orientação sexual das crianças da família, mas quanto a isso pode ser dado o desconto. O autor tem 85 anos, viveu uma outra época e permanece preso a ela. Cabe a família evitá-lo ou educar os mais jovens a ignorar os preconceitos do ancião.

O problema é que o chorume senil de Benedito não se restringe à família, é amplificado por uma concessão pública. O próprio autor diz: “Eu tenho na mão 80 milhões assistindo minha novela, tenho que ter responsabilidade com as pessoas que estão me assistindo”.

É claro que esse número é apenas mais uma evidência de que Benedito vive no passado, e as novelas da Globo não representam mais a sombra do que representavam.

Era muito fácil para a Globo ter novelas com grandes audiências quando não havia concorrentes. Ainda não tínhamos acesso às séries via internet e as outras emissoras não receberam tanto dinheiro da ditadura militar para as produções de dramaturgia.

Benedito assim deitou e rolou durante décadas, mesmo com bombas como Renascer ou Esperança.

Felizmente, o Brasil da era Netflix caminha para esquecer completamente a obra do autor, basicamente uma coleção de clichês, melodrama barato e visões políticas conservadoras, criadas à imagem e semelhança da própria Globo. Em O Rei do Gado, por exemplo, prestou enorme desserviço a causa dos sem-terra, idealizando a meritocracia dos grandes latifundiários.

Quanto aos homossexuais, sempre tratou como se não existissem. O que pode comprovar que Adorno tinha razão em muitas de suas considerações sobre o funcionamento da indústria cultural, especializada em alienar as massas ao falsificar a realidade de acordo os próprios interesses.

Benedito chega agora a dizer que “o que não é justo é transformar: só é normal o cara que é bicha, o que não é bicha não é normal. A mulher que é sapatona é perfeita, a que não é sapatona não é legal. É assim que estamos vivendo”.

Poderíamos então tentar mostrar algumas estatísticas para Benedito, dizer que a expectativa de vida de uma travesti no Brasil é 35 anos, que o país é recordista em assassinatos com motivação homofóbica, que adolescentes são expulsas de casa por serem lésbicas ou crianças são espancadas para “virar macho”. E assim tentar convencê-lo de que não, as coisas não se inverteram, os heterossexuais não são perseguidos ou assassinados por serem heterossexuais, nem ninguém tenta obrigá-los a “virar” gay.

Talvez o autor acredite que seja possível essa mudança e tenha desenvolvido suas próprias técnicas para criar, como afirma, tantos machos. Talvez acredite também que ao sumir em sua obra com “histórias de bicha”, com a realidade de que homossexuais existem, eles deixem de existir.

O mais provável é que consiga com isso somente despertar desprezo, indiferença ou o aplauso de uma minoria fundamentalista e ignorante. O mesmo que deve conseguir com a nova novela.

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