Não me conta, &%*@$#!!

O trailer de um novo filme francês e a questão: como fugir dos malditos spoilers?

O filme francês Ferrugem e Osso fez sucesso no Festival de Cannes, em maio, e ganhou o Festival de Cinema de Londres, em outubro. Deve estrear aqui em janeiro. Mas seus realizadores estão preocupados com uma palavra: spoilers. Basicamente, é aquela informação que entrega a história. Não precisa ser o final. Por exemplo: se você revelar que James Bond tem um irmão gêmeo anão e albino em Operação Skyfall, pode arruinar a diversão de muita gente. Ainda mais que a mãe deles é M. É só fazer as conexões.

No caso de Ferrugem e Osso, a maior questão está na diferença fundamental entre o trailer francês e o inglês.

ALERTA DE SPOILER!

No primeiro, que você vê acima, aparece uma cena em que o personagem de Marion Cotillard, Stephanie, uma tratadora de baleias orca, está sem as pernas por causa de um acidente de trabalho. No segundo, isso é omitido, já que é decisivo na trama. As resenhas não escondem essa passagem. Afinal, acontece nos minutos iniciais. É falar demais? Qual o limite?

Ferrugem e Osso: ela amputa as pernas. Mas é no início. Você não vai deixar de ver por que contei, certo...?

Se você for levar a sério, é melhor não saber absolutamente nada sobre qualquer filme. Não entre na internet, não leia jornais, não coverse com estranhos (Aliás, é algo que faço as vezes e recomendo. A última foi com o simpático Ruby Sparks). Hoje, é virtualmente impossível não ter pista nenhuma, especialmente no caso de blockbusters como o de Batman e o citado 007.

Há alguns anos, o crítico Roger Ebert, do LA Times, talvez o maior do mundo, escreveu sobre o assunto: “Se você não viu ainda Menina de Ouro e não sabe nada sobre o argumento, pare de ler aqui”, cravou no parágrafo de abertura. “Os personagens do cinema nem sempre fazem o que fazemos. Às vezes, eles fazem escolhas que nos ofendem. Eu sempre fui acusado de contar demais a história. Anos atrás, comecei a notar avisos de spoilers na internet e passei a usá-los”.

Tem gente que não se importa. O site Omelete, por exemplo, posta vídeos comentados — uma versão com e outra sem spoilers. A Folha de S.Paulo teve outra solução: publicá-los numa coluninha de ponta cabeça na Ilustrada.

Isso não é novidade, na verdade. Em 1960, Alfred Hitchcock tentou resolver no braço o problema dos espectadores que contavam como acabava Psicose. Ele mandou colocar cartazes nos cinemas: “Ninguém… NINGUÉM MESMO… será admitido na sala após o início da sessão”. Mestre da autopromoção, também colou papéis na parede com sua foto, onde se lia: “Se você não sabe guardar segredo, por favor, mantenha distância das pessoas depois de ver Psicose” e “Não entregue o final. É o único que temos”.

Presumo que você já tenha visto esse clássico do terror psicológico. De qualquer maneira, aí vai um, a apenas um, spoiler: o sangue que Hitch utilizou na filmagem era de uma marca de xarope de chocolate. Dito isto, cremos ter dito tudo.


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