A indignação seletiva dos “cristãos” que lincham Thammy e calam sobre evangélico pedófico preso. Por Nathalí

Campanha da Natura, que teve a participação de Thammy Miranda, incentiva os pais a expressarem seus sentimentos sem medo e explora as descobertas da paternidade
Foto: reprodução

Uma campanha publicitária da Natura virou polêmica e o motivo é a cara da hipocrisia dos conservadores brasileiros: a campanha para o Dia dos Pais foi estrelada por Thammy Miranda, o filho transexual da cantora Gretchen e pai de Bento.

O bebê é fruto de uma gestação por inseminação artificial com sua companheira Andressa Ferreira.

Malafaia não perdeu tempo e bradou na internet pelo boicote à marca por conta da campanha, que considerou “uma afronta aos valores cristãos”.

O engraçado, para não dizer trágico, é que o pastor não disse uma só palavra sobre o pedófilo evangélico Sylas Sousa Silva, cujo primeiro nome não é a única coisa que tem em comum com Malafaia: o pedófilo de 31 anos preso por fazer mais de sessenta vítimas dizia-se evangélico e chegou a se filiar a um partido cristão.

Não seria, isso sim, uma afronta aos valores cristãos?

Logo agora que Sylas foi preso, o que seu xará e correligionário Malafaia considera uma “afronta aos valores cristãos” e uma campanha publicitária estrelada por um homem que cuida do próprio filho com amor e responsabilidade, e um dito evangélico que colecionava fotos de crianças em posições pornográficas.

Ou isso é o timing perfeito pra passar vergonha, ou é só a velha hipocrisia conservadora e sua indignação seletiva.

Em um país com mais de cinco milhões de crianças sem o nome do pai no registro de nascimento, mais de quatro milhões de órfãos e onze milhões de mães solo, o problema é um transexual numa campanha de Dia dos Pais? E chamam isso de “defesa da família e dos valores cristãos”?

Isso não é defesa da família, da vida, dos valores cristãos ou o escambau – porque, como já deu pra perceber, a turma de Malafaia não se importa tanto assim com esses detalhes.

O problema dos conservadores com Thammy Miranda é que sua figura, apesar das tantas perseguições e percalços, legitima a transexualidade – e a paternidade de homens trans – para o grande público, uma realidade que tanto a igreja evangélica quanto os setores mais conservadores da sociedade (com o perdão da redundância), ainda vão demorar um longo tempo pra aceitar.

Até lá, marcas como a Natura – que apoiam a diversidade e consideram justa toda forma de amor – continuarão sofrendo os efeitos positivos de vexames como este de Malafaia: quanto mais pastores hipócritas pedem boicote, mais a marca sobe no nosso conceito.

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