A influência dos EUA e da extrema-direita na crise migratória da Espanha

Atualizado em 31 de julho de 2026 às 14:18
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez

A crise migratória em Ceuta, cidade autônoma espanhola no norte da África, tornou-se instrumento de pressão contra o governo de Pedro Sánchez. Enquanto Madri tenta conter a entrada de dezenas de milhares de pessoas, Estados Unidos, Israel e a extrema-direita europeia usam o episódio para defender fronteiras mais fechadas, atacar a Espanha e fortalecer a aliança com Rabat, capital do Marrocos.

Segundo o Ministério do Interior espanhol, cerca de 60 mil migrantes atravessaram a fronteira, enquanto milhares tentaram chegar ao enclave pelo mar. As autoridades confirmaram dezenas de mortes, e a Guarda Civil admitiu que a operação superou sua capacidade. Madri enviou militares e acelerou devoluções.

Em maio, Washington aprofundou a aproximação com o Marrocos, aumentando a desconfiança sobre o papel dos Estados Unidos na atual crise vivida pela Espanha.

Na ocasião, Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, elogiou o rei Mohammed VI e reiterou: “Sob a liderança do presidente Trump, os Estados Unidos reconhecem de forma inequívoca a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental”. Em troca desse reconhecimento, anunciado em 2020, Rabat normalizou relações com Israel nos Acordos de Abraão.

A parceria inclui armas, drones e inteligência militar, além de ampliar a influência marroquina no Estreito de Gibraltar.

A movimentação chegou ao Congresso estadunidense. Um relatório do Comitê de Apropriações da Câmara afirmou que as duas cidades estão “em território marroquino” e “sob administração espanhola”, além de incentivar Rubio a mediar seu futuro.

O texto, exposto por Juan Carlos Sanz no El País, abre espaço para uma negociação diplomática sobre o estatuto das duas cidades.

O documento foi subscrito pelo republicano Mario Díaz-Balart, integrante do grupo parlamentar pró-Marrocos. Ele já havia declarado: “Ceuta e Melilla estão em território marroquino. A realidade é que não estão em território espanhol, e esse tipo de coisa é negociado e discutido entre amigos e aliados”.

O chanceler José Manuel Albares respondeu: “A condição espanhola de Ceuta e Melilla, assim como a de Valladolid e de Santiago de Compostela, está fora de qualquer dúvida”.

Olhares contra a Espanha

A pressão também cresceu na Europa. A ministra do Interior da Finlândia, Mari Rantanen, apoiou a exclusão da Espanha do Espaço Schengen e acusou o país de ter “fracassado completamente” na proteção da fronteira externa.

Rantanen chamou o episódio de “invasão migratória” e afirmou: “A Espanha deve fazer a sua parte ou não poderá continuar fazendo parte do Espaço Schengen”. A medida restabeleceria controles nas fronteiras espanholas e restringiria a livre circulação.

Pedro Sánchez classificou a entrada em massa como um “ataque” e uma “violação da integridade territorial da Espanha”.

O premiê afirmou que redes de tráfico de pessoas estimularam as travessias com informações falsas sobre uma decisão do Supremo Tribunal espanhol. Segundo ele, antes da crise, o país registrava queda superior a 30% na imigração irregular.

Donald Trump afirmou à Fox News que as imagens de Ceuta deveriam servir de alerta aos Estados Unidos para a eleição de 2028. “É terrível. Lembrem-se dessa imagem. Assim estaremos nós daqui a três anos se o lado errado vencer”, declarou. Ele também disse que os estadunidenses “não viverão muito bem” caso os democratas retornem ao poder.

A Casa Branca responsabilizou Sánchez. A porta-voz Anna Kelly afirmou: “O presidente Trump vem alertando a Europa há muito tempo sobre as consequências de continuar perseguindo políticas globalistas de extrema esquerda, como facilitar a migração em massa”.

Depois, acrescentou: “A Espanha e outros países que adotaram essa filosofia destrutiva devem mudar de rumo imediatamente ou colocarão em risco a própria sobrevivência”.

Ao apresentar Ceuta como imagem do futuro dos Estados Unidos sob um governo democrata, Trump transforma uma crise humanitária em propaganda eleitoral. O discurso associa imigração a desordem e ameaça nacional.

Israel também aproveitou o episódio para atacar Madri. O embaixador israelense na ONU, Danny Danon, escreveu: “A Espanha, que nunca perde uma oportunidade de dar lições a Israel, declarou estado de emergência em Ceuta por causa de sua política migratória”.

Em seguida, afirmou que o país deveria explicar “por que ainda mantém enclaves coloniais na África”. O governo espanhol esclareceu que nenhum estado de emergência nacional havia sido decretado.

A ofensiva ocorre no pior momento das relações entre Espanha e Israel desde o início da guerra em Gaza. Sánchez reconheceu o Estado da Palestina e suspendeu exportações de armas para Israel, abrindo espaço para uma retaliação política de Tel Aviv.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.