A intimidade como farsa. Por Moisés Mendes

Publicado no Extra Classe

Bolsonaro

Bolsonaro não tem mais o que esconder. O Brasil todo sabe que ele é Airton, Rafael e 05, os codinomes que diz ter usado para fazer os testes de coronavírus. Chegamos finalmente à intimidade dos codinomes de Bolsonaro.

Estamos diante de mais um deboche. Bolsonaro já debochava do Brasil desde 13 de março, quando fez o primeiro teste ao voltar dos Estados Unidos e passou a esconder o resultado daquele e de mais dois exames. E agora debocha usando codinomes.

Os laudos foram protegidos como se fossem um segredo para a cura da Covid-19. O Brasil queria saber se Bolsonaro havia sido infectado e se andava por aí contagiando todo mundo. E Bolsonaro se negava a dar informações.

Por que Bolsonaro guardou por tanto tempo o segredo de testes que tinham resultado negativo? O que o levou a proteger os laudos por exatamente dois meses, se não guardavam nada de excepcional?

Os codinomes de Bolsonaro podem esconder mais do que se pensa. Não há nenhuma explicação razoável, por mais imprevisível que Bolsonaro seja, para que os laudos tenham ficado guardados por dois meses.

Bolsonaro fez fotos no hospital, em casa e no Palácio do Planalto com a barriga exposta com a bolsa de colostomia. Só não expôs as tripas porque talvez não tenha encontrado um fotógrafo disposto a enfrentar essa empreitada.

Mas estava preocupado com a intimidade de exames que haviam dado negativo. Bolsonaro queria proteger-se de laudos que atestam que ele nunca teve a Covid-19.

O que de fato Bolsonaro protegia? Quem vai desvendar o mistério envolvido na tentativa de Bolsonaro de evitar que o Brasil soubesse os resultados dos exames?

E agora passamos então às suspeitas. Não há como não prosperar a dúvida (apenas mais uma) sobre o esforço de Bolsonaro para esconder os laudos. E a maior de todas as dúvidas vale como indício com fundamento: Bolsonaro teria sido infectado?

Bolsonaro fez um discurso na TV com pose de infectado, ao dizer que não dava bola para uma possível gripezinha, porque era um sujeito com histórico de atleta.

Saiu a cumprimentar todo mundo nas ruas. Conviveu sem máscara com assessores e com quem se aproximava dele. Desafiou o isolamento. Falou todos os dias com a claque do cercado do Alvorada, sem nenhum cuidado. E disse em Porto Alegre que talvez tenha sido mesmo infectado.

Bolsonaro exibe-se como alguém que se convenceu da imunidade contra o coronavírus. Transmite sempre a sensação de que é um homem certo de que nunca mais sofrerá contágio.

Airton, Rafael e 05 podem ser os nomes de uma farsa, apenas mais uma. O Bolsonaro que montou uma estrutura industrial de produção de mentiras na campanha e dentro do governo, que recebia dinheiro de Queiroz depositado na conta da mulher, que era vizinho do assassino de Marielle e que era amigo do matador Adriano da Nóbrega (já executado) é agora Airton, Rafael e 05.

O Bolsonaro de tantas coisas falsas usou nomes falsos para se proteger do quê? Se os exames dessem positivo, o governo poderia, com a proteção dos codinomes, acobertar o contágio de Bolsonaro?

O presidente dos Estados Unidos fez teste de coronavírus e revelou o laudo para todo o país. O primeiro-ministro do Reino Unido foi infectado e hospitalizado, quase morreu e fala hoje da doença para que todos entendam o que enfrentou.

Mas o poderoso Bolsonaro, com o apoio de apenas um terço da população, não poderia dizer que fez testes que deram negativo?

É muito estranho. Os laudos somente foram divulgados sob pressão da Justiça, em atenção a um pedido do jornal O Estado de S.Paulo. Também é estranho que a Advocacia-Geral da União tenha enviado num dia dois laudos ao Supremo. E no dia seguinte tenha enviado mais um. Por esquecimento.

Tudo é estranho. Bolsonaro fala das intimidades da família a ponto de dizer publicamente que a avó da mulher dele envolve-se com tráfico e que a sogra já adulterou documentos.

Conta, como fanfarrão, que o filho mais novo papa todas no condomínio. Mas não poderia dizer que nunca foi infectado pelo coronavírus.

A partir de hoje, mais do que até ontem, Bolsonaro passa a ser visto como alguém que escondeu o contágio e andou por aí infectado e infectando.

Os exames em nome de Airton, Rafael e 05 estão agora diante do Ministério Público. Essa é a tarefa urgente: verificar logo a autenticidade dos laudos. E essa é também a missão do jornalismo.

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