A intolerância religiosa e o caso das crianças mortas no RS: erro policial ou conspiração? Por Carlos Wagner

A Polícia Civil de Novo Hamburgo dá seu show

Publicado no blog do repórter Carlos Wagner

Não foi escrito nem falado. Mas o que foi lido e ouvido nas entrelinhas do que foi publicado é que ou houve uma conspiração ou um erro na investigação. No trabalho do delegado Moacir Fermino, da 2ª Delegacia de Homicídios (2ª DPH) de Novo Hamburgo, no caso das duas crianças sacrificadas em ritual de magia negra, no interior de Gravataí, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Um bruxo e outras seis pessoas foram apontadas como suspeitas e tiveram a prisão preventiva decretada.

O bruxo e outras quatro pessoas foram presas, e as outras duas ficaram foragidas. Fermino substituiu o delegado titular da 2ª DPH, Rogério Baggio, que estava em férias. Na quarta-feira, em entrevista coletiva, Baggio desmontou o trabalho do seu colega, os presos foram soltos, e o caso voltou à estaca zero. De concreto, restaram os corpos das duas crianças irmãs que foram esquartejadas e largadas na periferia de Novo Hamburgo.

A Corregedoria da Polícia Civil deverá esclarecer o que aconteceu na apuração do delegado Fermino. De concreto, o que existe é que investigação dele foi contaminada desde o início pela intolerância religiosa. Alertei sobre isso em 14 de janeiro no post “A intolerância religiosa, a investigação policial e o caso das crianças sacrificadas em um ritual de magia negra“. Alertei aos meus colegas repórteres que a Constituição de 1988 reafirmou o direito à liberdade de culto e religião. Lembrei também que os seguidores do satanismo têm sido vítimas da intolerância religiosa.

O esclarecimento do que aconteceu na investigação do delegado Fermino não é um assunto interno da Polícia Civil. Ele é de interesse público, e os investigadores da Corregedoria terão que dar satisfação do que aconteceu, porque os suspeitos, além de terem sido presos – cinco, e dois ficaram foragidos –, tiveram grandes prejuízos nos seus negócios, e suas famílias foram expostas à opinião pública.

Além disso, a investigação que estava sendo feita sobre as duas crianças esquartejadas teve um prejuízo enorme e se tornou uma forte candidata à galeria dos crimes insolúveis. Foram jogadas no lixo dezenas de horas de trabalho envolvendo delegados, agentes e peritos criminais.

Aqui quero refletir com os meus colegas calejados e os novatos. As pessoas que trabalham com investigação sabem que o erro faz parte do jogo. Já me aconteceu. Se pega um caminho errado para esclarecer um fato, e só vai se descobrir lá frente. Nesse quesito, os investigadores da Corregedoria têm um farto material a sua disposição na apuração feita pelo delegado Baggio.

A investigação para saber se houve uma conspiração contra os sete suspeitos é mais complexa.  A primeira coisa que terá de ser esclarecida é quem armou a conspiração e qual foi a sua motivação. Não é um trabalho fácil chegar até essa pessoa. O caminho que os investigadores deverão percorrer para chegar lá é saber quem no caso foi beneficiado, ou materialmente ou em prestígio, com a armação que houve para cima dos sete suspeitos.

Nas entrelinhas do que foi noticiado e do que estão falando pelos corredores do Palácio da Polícia Civil, existe um cérebro que articulou todo esse caso contra os sete suspeitos. O próximo passo será saber qual foi o papel do delegado Fermino. O fato de ele ser um policial não o exclui de, por ingenuidade, aliada ao preconceito religioso, ter sido vítima na conspiração. Os investigadores da Corregedoria vão estabelecer com precisão qual foi o papel do delegado nesse episódio.

Há dois fatores que não estão ligados a esse caso. Mas é necessário que sejam levados em conta pela Corregedoria. O primeiro se refere ao enorme desemprego semeado pelos problemas econômicos do Brasil. Em cidades industriais, como Novo Hamburgo e Gravataí, as indústrias demitiram centenas de pessoas. Uma oferta de emprego é moeda poderosa nesse contexto.

O segundo fato é que 2018 é um ano eleitoral. E, pela repercussão estadual, nacional e internacional que o caso teve, certamente renderia votos nas eleições. A nossa função como repórter é ficar de olho na Corregedoria, porque o resultado dessa investigação poderá mudar novamente o rumo desse caso. E a de ligar, pelo menos, uma vez por semana, para o delegado Baggio, para saber como vai o caso das crianças mortas, uma investigação de grande interesse público.