A investida do desgastado Lenín Moreno contra Assange. Por Murilo Matias

Julian Assange. Foto: Reprodução/YouTube

POR MURILO MATIAS

Presidente do Equador assume protagonismo internacional no caso Assange enquanto aumentam críticas internas contra a atual gestão

Em meio aos interesses globais que envolvem a prisão de Julian Assange e as implicações do caso para potências como Estados Unidos e Inglaterra, o papel do Equador tem passado quase desapercebido diante da grande repercussão do acontecimento.

A decisão do presidente equatoriano Lenín Moreno de retirar o asilo político ao fundador do site WikiLeaks responsável pela divulgação de documentos confidenciais,  surge no momento de maior fragilidade do mandatário à frente do cargo diante de uma agenda interna que aponta para a desidratação de sua imagem positiva e graves acusações de corrupção.

Menos de duas semanas atrás, o partido Alianza País, de Moreno, foi o grande derrotado das eleições municipais e regionais realizadas no país ao perder nas principais cidades, incluindo Guayaquil, controlada há anos por oligarquias conservadoras e a capital Quito, cujo vencedor foi o progressista Jorge Yuda.

No plano econômico, o endividamento crescente junto ao Fundo Monetário Internacional – o mais recente empréstimo concedido foi de quatro bilhões de dólares – e a demissão de quase dez mil funcionários públicos são elementos que ajudem a impulsionar o quadro de desgaste, comprovado pela rejeição de mais da metade dos cidadãos em relação ao presidente de acordo com pesquisa divulgada pelo Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica (CELAG).

O mesmo levantamento demonstrou a disposição de apenas 11% do eleitorado em votar novamente em Moreno. “Esse presidente está acabando com o país. Diminuiu o orçamento para educação e saúde e hoje comete mais uma estupidez ao retirar o asilo de Assange”, critica Jimmy Enriquez.

Também nesse sentido, o ex-presidente Rafael Correa classificou Moreno como o maior traidor da América Latina depois do fato desta quinta-feira.

“O mais grave de todas ingerências e imposições que se produzem sob a região, sobretudo partindo dos Estados Unidos. Para isso se está violando normas internacionais e isso aparece na extradição de Assange, além da disputa doméstica de nosso país. A pergunta é como chegamos a esse ponto”, observa o equatoriano residente no Brasil Jorge Vivar, professor da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da UFRGS.

Eleito por margem estreita, Lenín Moreno chegou ao poder em 2017 com a missão de dar continuidade ao processo da Revolução Cidadã liderado até então por Correa e considerado um dos grandes movimentos de inclusão social verificado nos últimos anos.

Em poucos meses, uma inesperada ruptura deslocaria o novo presidente para o campo conservador provocando a descontinuidade do projeto aprovado nas urnas e a perseguição de adversários políticos, incluindo o vice-presidente eleito Jorge Glas, preso e afastado do cargo, e deputados da Assembleia Nacional.

O giro na arena geopolítica

O reordenamento de posições se daria por óbvio também na agenda externa. Além do constante pedido de empréstimos a órgãos internacionais, o alinhamento aos conservadores da região pode ser medido na postura perante a Venezuela ao reconhecer o autoproclamado Juan Guaidó chefe de estado venezuelano em clara oposição ao governo eleito de Nicolas Maduro. Nesse ano a tensão diplomática foi sentida também nas ruas, em episódio marcado pela xenofobia venezuelanos sofreram ameaças de violência no município de Ibarra, localizado no norte do Equador.

Em retrospectiva a esse quadro, a expulsão do fundador do WikiLeaks da Embaixada se desenhava como uma questão de tempo.

Entre as razões para a decisão o canciller José Valencia alegou a intromissão do asilado em assuntos de outros países e asseverou que a naturalização do australiano para a condição de cidadão equatoriano apresenta inconsistências. Moreno, por sua vez, afirmou que o jornalista agredia os funcionários de segurança da Embaixada e manchava as paredes com suas próprias fezes.

De acordo com documentos oficiais, 6,5 milhões de dólares foram gastos nesse período devido ao pagamento a médicos, alimentação e outras despesas especificadas.

Os principais jornais locais e a maioria da Assembleia Nacional postaram-se em defesa da ação de Moreno cancelando a proteção diplomática concedida há sete anos quando Correa presidia o país.

“Estamos frente a contínuas violações a leis e os direitos humanos. Os setores da direita, que englobam os grandes meios, aplaudem o feito. A esquerda rechaça, mas a maioria da cidadania está desinformada. Temos claro que se vulnerabilizou a constituição ao permitir o ingresso de forças britânicas à nossa embaixada, isso viola a soberania territorial”, contrapõe a ex-assembleista Sofia Spin.

Para além das cobranças ao tema da soberania e dos direitos humanos, Moreno enfrenta adversidades que podem inclusive causar a perda do mandato caso as investigações relativas ao chamado INA Pappers comprovem sua culpabilidade ao manter recursos em paraísos fiscais – a terminação INA corresponderiam ao final do nome das três filhas do presidente – Irina, Cristina e Carina.

“Consideramos que essa decisão correta sobre Assange não teve a ideia de nublar a investigação do INa Pappers. A situação de Moreno segue questionada. Na próxima semana a Fiscalia deve emitir seu parecer. Nossa bancada exige transparência e se os indícios indicarem a necessidade de um processo de afastamento, assim o faremos. O povo espera responsabilidade por parte da Assembleia”, opina o deputado Fernando Flores, da conservadora sigla Criando Oportunidades (Creo).

Ao cabo da ampla repercussão mundial, embora tenha dado fim a uma prolongada controvérsia no caso Assange a crise de Lenín Moreno pode estar somente começando.

As necessidades do povo do Equador seguramente não cabem na embaixada de Londres e se espalham por muitas partes da metade do mundo.

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