A jornalista que resolveu viver depois de descobrir que tem um câncer incurável

Helen com o piloto de F1 David Coultahrd
Helen com o piloto de F1 David Coulthard

 

Publicado originalmente na BBC Brasil.

 

O que você faria se descobrisse que seu tempo fosse limitado? Se alguém dissesse que você pode morrer dentro de alguns meses e, certamente, você não tem mais do que cinco anos de vida?

Esta é a situação que enfrento. Na véspera do Natal do ano passado descobri que tinha um câncer incurável no ovário. Senti ondas de choque, tristeza e raiva. Mas também soube que, assim que eu me reconciliasse com este fato, eu iria começar a aproveitar ao máximo o tempo que resta.

Poucos dias antes do diagnóstico, enquanto esperava por uma das muitas consultas, pensei nas coisas que eu poderia nunca fazer e comecei a escrever em meu bloco de repórter.

Ter um cachorro, explorar as ruínas antigas de Roma, andar de lancha no rio Tâmisa, publicar meu livro, aprender a jogar pôquer e ver os pinguins no Polo Sul são apenas algumas das 50 coisas que quero fazer.

Isto ficou conhecido como “bucket list”, pois tem todas as coisas que você quer fazer antes de chutar o balde (balde – “bucket” em inglês, gíria para morrer). Não gosto do termo, prefiro me concentrar em viver. Prefiro chamar de minha “lista de vida”.

Questão de identidade

A questão do câncer é tão horrível que pode facilmente tomar sua identidade. Ter esta lista dá algo mais para se concentrar e faz a pessoa se sentir ela mesma de novo.

Até agora, consegui fazer dez coisas da minha lista: servi uma cerveja em um pub local, fui a Paris com um grupo de amigas só para almoçar, fui modelo em um desfile, entre outros. Na próxima semana, vou apresentar um programa na Radio 4 (da BBC), o que já é outra coisa riscada da lista.

Mas, o que é mas importante está no topo da minha lista: me mudar para o campo e viver na minha própria casa. Há alguns meses eu finalmente comprei minha casa em um vilarejo, ainda precisa de muito trabalho para tirar o visual dos anos 80, mas uma vez que eu fizer isto, poderei viver lá.

Não sei se vou conseguir fazer tudo da minha lista, mas Susan Spencer-Wendel, da Flórida, conseguiu. Ela é uma doente terminal, sofre de esclerose lateral amiotrófica (doença degenerativa dos neurônios motores), um problema incurável.

Susan percebeu que tinha cerca de um ano de saúde relativamente boa então ela começou a fazer todas as viagens que teria fazer com os entes queridos. Isto incluiu ver a aurora boreal com a melhor amiga e comprar um vestido de casamento em Nova York com a filha adolescente, algo que ela sabe que nunca vai poder fazer de verdade.

Ela escreveu a história, Until I Say Goodbye: My Year of Living with Joy (“Até Eu Dizer Adeus: Meu Ano Vivendo com Alegria”, em tradução livre). Ela escreveu o livro em um iPhone, usando apenas um polegar.

“Descobri a profundidade do amor que sinto pelas pessoas à minha volta e a profundidade do amor que elas sentem por mim. Descobri amigos que nunca soube que tinha. E isto me enleva toda hora”, disse.

Controle

Assim como Susan, minha lista ajuda a ter de volta algum tipo de controle. Quando alguém fala que você pode morrer logo, muitos de seus planos para o futuro são despedaçados, a vida gira em torno de exames, tratamentos e a tentativa desesperada de se sentir bem.

Minha lista me deu algum tipo de estrutura. Não há mais desculpas. Você tem que continuar e fazer as coisas ao invés de pensar que você deve fazer algum dia. É quase como dar prioridade ao prazer, e fazendo isto, você cria memórias fortes.

A lista me fez perceber que, quando participo de alguma coisa que gosto, me sinto muito melhor. Em maio, fui ver o sol nascendo em Stonehenge. Assim que entrei no antigo círculo de pedras, foi como se os efeitos da quimioterapia desaparecessem.

Por uma hora mágica, assistimos a noite se transformar em dia. Quando saímos, o feitiço acabou. Não muito depois, me senti tão mal que nem conseguia andar direito.

Isto aconteceu no final de um tratamento muito tóxico. O que me ajudou a enfrentar tudo isso foi meu plano de me recuperar depois em uma praia perfeita.

Estava tão gelado e úmido em alguns momentos, que precisei de um casaco, mas passei um tempo feliz na Cornualha. Este era o número cinco da minha lista, então mostra como eu queria estas férias.

Eu costumava ser muito esportiva e ainda sinto falta daquela descarga de adrenalina, então escolhi algumas coisas como nadar com tubarões e paraquedismo. Ainda não fui corajosa o bastante para enfrentar estas coisas.

Mas eu fui levada para um passeio em uma pista de corrida. Um amigo arranjou para o ex-piloto de Fórmula 1 David Couthard me levar em um carro em Silverstone. A velocidade foi tão emocionante que eu não conseguia nem gritar. É engraçado como sentir tanto medo pode fazer com que você se sinta viva.

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