A lentidão da Justiça no caso do aluno da FGV que chamou negro de “escravo” nas redes. Por Zambarda

Gustavo Metropolo e a postagem. Foto: Reprodução

A Justiça de São Paulo adiou uma audiência que estava marcada para o dia 16 de dezembro.

Na ocasião seria ouvido o jovem que tirou uma foto de um colega negro da Fundação Getúlio Vargas e compartilhou em um grupo de WhatsApp com a frase: “Achei esse escravo no fumódromo. Quem for o dono avisa!”.

O caso tornou-se público em março de 2018.

O autor da postagem, Gustavo Metropolo, é acusado pelos crimes de injúria racial e racismo. Ele era aluno do 4º semestre do curso de Administração de Empresas da FGV e chegou a ser a ser suspenso da faculdade por três meses.

O DCM esteve no local da audiência. A Justiça não ouviu o réu para colher depoimentos das novas testemunhas no caso.

Uma análise mais atenta mostra algumas peculiaridades. A ação penal não é pela injúria racial, mas sim por roubo. O processo foi recebido em 3 de abril do ano passado.

A postagem racista, o roubo de celular e a repercussão na FGV

De acordo com o relatório final do inquérito da Polícia Civil, de 28 de março, o estudante Gustavo Metropolo teria postado uma mensagem num grupo de WhatsApp “Candango” com uma foto mostrando duas mulheres sentadas num banco acompanhadas por um homem negro.

A legenda da imagem trazia a seguinte mensagem: “Achei esse escravo aqui no fumódromo. Quem for o dono avisa!”.

O processo de Gustavo Metropolo. Foto: Reprodução

A mensagem circulou no dia 20 de setembro de 2017, às 15h13. A defesa de Gustavo afirma que seu celular foi roubado em 22 de novembro daquele mesmo ano. O smartphone teria sido clonado.

As informações foram recebidas pela Coordenadoria do Curso de Administração de Empresas da FGV no dia 6 de março. Um dia depois, Gustavo Metropolo fez uma confissão espontânea para os coordenadores de acordo com o inquérito final.

O acusado alegou que foi uma “brincadeira de mau gosto, estúpida”. Ele afirmou que estava arrependido e foi suspenso por três meses.

Um dos professores da instituição, Marco Antônio, que é coordenador, apresentou um papel com a foto para que Gustavo fizesse o reconhecimento. A informação também foi repassada para a polícia.

O processo de Gustavo Metropolo. Foto: Reprodução
O processo de Gustavo Metropolo. Foto: Reprodução

O processo foi instaurado pela vítima um mês depois da ação da FGV. A defesa de Gustavo então tentou alegar que o celular foi roubado e clonado, afirmando que as mensagens não seriam dele.

A promotora Cristina Helena OIiveira Figueiredo rebateu o argumento em um parecer de 13 de dezembro de 2018.

“Os fatos datam de setembro de 2017. O roubo do celular somente ocorreu em 22 de novembro de 2017. Assim, eventual invasão do dispositivo ou clonagem não guardam qualquer relação com os fatos perpetrados pelo réu em setembro”, resumiu a promotora.

A vítima e a denúncia

O processo de Gustavo Metropolo. Foto: Reprodução

O processo não corre em segredo de Justiça. A vítima chama-se João Gilberto Pereira Lima, também estudante da FGV, e esclareceu para a polícia que a fotografia foi tirada por Gustavo Metropolo “sem seu conhecimento” e distribuída no grupo de alunos e ex-alunos do Colégio Dante Alighieri, sendo alguns hoje estudantes na Fundação Getúlio Vargas.

Ele solicitou que o autor das imagens fosse processado por seus atos. João também teve conhecimento de que Gustavo admitiu para a coordenadoria a autoria das imagens.

No depoimento de Gustavo Metropolo, ele afirma que era proprietário de um celular com sistema iOS (iPhone) que foi roubado em 23 de novembro.

Na mesma documentação da 2º Delegacia de Polícia de Repressão Aos Crimes Raciais e de Delitos de Intolerância, Gustavo diz que teve um aparelho temporário com sistema Android e que hoje possui novamente um iPhone com o mesmo número.

Em depoimento para a polícia, Gustavo Metropolo afirma que não se recorda da mensagem racista e que continuou participando do grupo de WhatsApp em que a mensagem circulou, mesmo após o roubo do celular.

O DCM entrou em contato com Gustavo Metropolo e com João Gilberto Pereira Lima. Até o dia da publicação desta reportagem, não recebemos respostas para ouvir suas versões de um processo que ocorre há praticamente dois anos.

A audiência para ouvir o réu Gustavo Metropolo e a vítima foi remarcada para o dia 27 de abril de 2020.

O espaço segue aberto para manifestação de ambos.

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