Dilma se expressa mal ou é Dora Kramer que pensa torto?

Alguns jornalistas parecem preferir o rebuscamento confuso dos magistrados à simplicidade da presidenta.

Se você não se expressa bem, sucumbe em debates como este entre Serra e Dilma, em 2010
Se você não se expressa bem, sucumbe em debates como este entre Serra e Dilma, em 2010

Uma coluna de Dora Kramer no Estadão afirma que Dilma se expressa mal ao falar e ao escrever.

É uma tese frequentemente levantada por outros jornalistas conservadores. A conexão com Lula é inevitável: também ele falaria mal.

Comete-se aí um engano clássico: confundir simplicidade  — vital quando você se dirige a uma grande quantidade de pessoas — com pobreza de expressão.

A ignorância está muito mais em quem faz tal confusão – típica de uma certa classe média que busca ávida palavras rebuscadas – do que em quem fala a linguagem popular.

Você pode trabalhar com a hipótese de que os acusadores sabem do que estou falando, e escrevem críticas muitas vezes infames apenas porque conhecem a natureza embotada do público que os lê.

É uma possibilidade.

Claro que, se não se comunicassem bem, nem Lula e nem Dilma teriam chegado à presidência. Um candidato tem que passar por uma série de debates televisionados, e se ele fraquejar no manejo das palavras está morto.

Do lado oposto da simplicidade, está a empolação confusa. Esta sim se prestaria a chibatadas, mas para jornalistas como Dora Kramer este não parece ser um assunto.

Tente entender, por exemplo, as falas de muitos dos integrantes do STF. Um amigo meu, grande jornalista e mestre meu e de uma geração, me contou há pouco tempo uma passagem reveladora.

Ele estava numa padaria no momento  em que os ministros iam dando seus votos no Mensalão. As pessoas na padaria estavam com os olhos fixados na televisão que transmitia o julgamento. Quando um juiz terminou de apresentar seu voto, um cliente da padaria comentou: “Mas vem cá, ele condenou ou inocentou?”

Não me lembro de ter lido uma única crítica à falta de clareza dos juízes do STF no Mensalão. Minha referência, em clareza, era o inglês meridiano do juiz inglês Brian Leveson no processo que ele comandou de estudo dos limites da mídia britânica.

Qualquer pessoa compreenderia Leveson.

O juiz Marco Aurélio Mello, ao dar seu veredito em 54 minutos intermináveis e mortalmente enfadonhos, logo falou na “prolação do voto”.

Busquei, no Google, alguma fala vital de Joaquim Barbosa no processo.

Disse JB:  “Os chamados efeitos infringentes dos embargos de declaração – embora eventuais, atípicos e excepcionalíssimos, como bem frisou o Ministério Público Federal – são, ao menos em tese, possíveis de ocorrer. E, ocorrendo, podem levar à modificação do julgado, o que, a rigor, afasta a conclusão de que o acórdão condenatório proferido pelo Supremo Tribunal Federal em única instância seria definitivo. “

Pausa, e então aparece a seguinte frase. “(… ) O acórdão condenatório teria, inegavelmente, o caráter de definitividade.”

Definitividade.

A condenação seria definitiva, se entendi.

No Brasil, a ignorância doutoral costuma ser aplaudida.

Parece evidente, pela fala de JB, que nossos juristas  têm problemas  de português. Não admira. A educação no Brasil pós-ditadura deixa realmente a desejar, sobretudo nas escolas públicas das quais saiu JB.

Mas chegar — e não estou falando apenas dele, basta ver as transcrições de seus colegas – ao STF com um nível destes de expressão em língua portuguesa?

Não exigimos Cíceros, não exigimos réplicas de Demóstenes – mas alguém, como prescreveu Montaigne, que fale “a linguagem simples da verdade”.