A luta de um jovem pastor triturado pela máquina de difamação bolsonarista, que tem Oswaldo Eustáquio na engrenagem

Eustáquio e a difamação, arma que mata; e Heiderich, na busca por justiça

A juíza Adriana Angeli de Araujo de Azevedo Maia, da 5a. Vara Cível do Rio de Janeiro, determinou que blogueiro bolsonarista Oswaldo Eustáquio retire do ar todo conteúdo ofensivo ao pastor Felipe Hendeirich, acusado de pedofilia pela ex-mulher, que se apresenta como pastora, conferencista e escritora.

A decisão é extensiva também à própria ex-mulher de Felipe Henderich, ao jornal Agora Paraná, que publica o conteúdo do blogueiro bolsonarista, ao site Gospel Mais, ao Facebook e ao YouTube.

Caso a decisão não seja cumprida, os infratores terão de pagar R$ 5 mil de multa por dia de manutenção do conteúdo difamatório.

Felipe era o segundo marido de Bianca Toledo quando foi acusado em 2016 de abusar sexualmente do filho dela, então com 5 anos.

Na época, a pastora teve o apoio de Magno Malta, então senador, ex-presidente da CPI da Pedofilia e, mais tarde, citado em pelo menos um caso de falsa acusação contra um pai, que acabou cego de um olho por conta de tortura sofrida na polícia.

Não havia prova alguma contra esse pai, apenas a palavra de Magno Malta, tomada como de “credibilidade” pela polícia, que em razão disso obteve mandado de prisão contra o acusado, o prendeu e o torturou.

O pai foi inocentado pela Justiça, em processo que registra o suplício.

A denúncia feita por Magno Malta, em 2010, foi considerada decisiva para sua reeleição para o Senado.

Em 2016, dois anos antes de nova eleição, Malta repercutiu a denúncia contra o Hendeirich da tribuna do Senado.

Disse que havia visto as provas contra Heiderich, a quem xingou, no mesmo estilo que usou para outros acusados, inclusive o cobrador de ônibus.

Essas mesmas “provas” foram divulgadas por Oswaldo Eustáquio e Bianca Toledo depois que Felipe Heiderich deu entrevista para o canal de Antônia Fontenelle e para o DCM, e revelou detalhes do processo em que a Justiça reconheceu, com trânsito em julgado, que ele foi vítima de uma farsa.

O mais grave deste episódio é que Oswaldo Eustáquio admitiu, em entrevista, que passou a “investigar” Heiderich a pedido da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves.

Se verdadeira a declaração de Eustáquio, pode indicar o interesse do governo em um caso que se revela instrumento de perseguição a um cidadão brasileiro.

As provas podem ser consideradas “lixo” do ponto de vista jurídico, pois se trata de declaração de uma criança que, segundo peritos oficiais, foi induzida pela mãe, Bianca Toledo, para fazer certas declarações.

Em em trecho, a menino pergunta se deve falar do padrasto ou de outra pessoa. Além disso, o  depoimento foi colhido por uma pessoa próxima de Bianca, o que revela falta de imparcialidade.

A outra “prova” divulgada por Oswaldo Eustáquio é uma suposta tentativa de suicídio de Heiderich quando Bianca e o senador Magno Malta fizeram a acusação pública contra ele.

O que o pastor conta é que, dopado, ele foi levado para uma clínica particular, e mantido em cárcere privado, enquanto o caso era denunciado à polícia e sua prisão era decretada, sem que ele tivesse chance de defesa.

Na entrevista ao DCM, ele conta os horrores que viveu em uma cela do complexo penitenciário de Bangu.

“Me jogaram em uma cela comum, rasparam a minha cabeça, tiraram a minha roupa, e perguntaram qual é o artigo. Eu não fiz Direito. Eu nunca me envolvi em um processo criminal, civil, eu não sabia do que eles estavam falando. Na minha mente, veio: talvez ele esteja perguntando, sei lá, ele vai fazer vestibular. Artigo indefinido, artigo definido. Pronome, conjunções, que é a minha praia. Aí eu falei: não sei do que você está falando. E eu levei uma surra por causa disso. Eu lembro detalhes dessas pessoas. Elas não saem da minha cabeça. Eu posso reconhecê-las a quilômetros de distância. Então eu fui jogado numa cela nu, numa cela comum. E os carcereiros disseram assim: quem estuprar ele primeiro a gente não bate”, contou.

Ele faz uma pausa, não segura as lágrimas, e prossegue:

“Aí eu fiz a oração da cruz. Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito, porque o meu corpo acaba aqui. Não tem mais jeito. A única coisa que pedi a Deus é que eu tenha uma morte rápida, porque eu não quero sofrer muito. Aí eu me agachei tipo naquela posição fetal dentro da cela, e a cela, a gente só via isso em filme de terror, aquele filme Bicho de 7 Cabeças, dentro de um hospício, mas a cela é mais nojenta do que dizem, porque a TV não consegue passar cheiro. A TV não consegue passar umidade, a TV não consegue passar a quantidade de bicho, de inseto, de mosquito, de barata que tem.”

Relata ainda:

“A cela, o chão era úmido, tinha uma camas de concreto, beliche. Não tinha nada. Não tinha travesseiro, não tinha colchão, não tinha nada. Tinha um buraco para você fazer as suas necessidades, mas não tinha água para lavar, não caía água, não deixavam, não ligavam a água. Todos os dias de manhã e à tarde, eles ofereciam um café com leite e um pão. Mas ninguém nunca disse que você não tem uma caneca ou um copo para beber. Então, você não toma café, não toma leite.”

Sobre as condições no cárcere, finaliza:

“Aí eu fiquei num cantinho da cela, naquele momento um dos presos tocou no meu ombro, e eu levei aquele susto: já era, acabou. Aí me deu um short, o outro me deu uma camisa branca, o outro me deu uma havaiana. E eu tenho isso até hoje. Durante os dias em que fiquei na prisão, os presos sequer levantaram a cabeça para falar comigo. Eles falavam comigo de cabeça baixa. E ali ninguém sabia quem eu era. Não há justificativa humana para isso”.

Heiderich encontrou em miseráveis, vítimas de um sistema perverso, a dignidade que não teve no relacionamento com pessoas de sua classe social , como a ex-esposa e o senador Magno Malta.

“Ela é amiga de infância de um senador da república, que eu não falo sobre ele porque tenho medo. Eu tenho medo, porque não tenho apoio, não tenho suporte. Eu pedi apoio aos direitos humanos, não tem. Então, se eu falar sobre ele, a probabilidade de eu ser morto é muito grande. Quem vai defender? Quem é Felipe na fila do pão contra o governo? Quem é?”

Heiderich, que perdeu seus bens em razão da anulação do casamento e vive hoje num apartamento de quarto e sala, não desistiu.

Mesmo com medo, procurou a Justiça e tem tido vitórias. Até o Ministério Público pediu sua absolvição.

Agora, a juiz determina a exclusão dos vídeos de Eustáquio, que está em prisão domiciliar por não cumprir medidas cautelares em razão de uma investigação por fake news.

Magno Malta não se reelegeu, mas está de olho na próxima eleição, daqui a dois anos. Pode ser candidato a deputado federal, já que terá dificuldade para se eleger senador por seu Estado, Espírito Santo.

Continua influente. Damares foi sua assessora no Senado.

Bianca Toledo ainda tem muitos seguidores na rede social, – mais de 3 milhões só no Facebook.

No momento, ela vende vagas para a Primeira Turma da Escola Bianca Toledo. Por 360 reais à vista ou 12 parcelas de R$ 35,07, o cliente recebe um livro para leitura diária da Bíblia e os links para participar de 24 aulas online.

Já Damares Alves é cotada para ser candidata a vice, na chapa de Jair Bolsonaro em 2022, quando tentará a reeleição.

Felipe, que perdeu mais de 20 quilos, faz tratamento contra atrofia muscular, e vive da ajuda de amigos e familiares.

Porém, não desistiu de buscar reparação pelos danos morais e materiais que tem sofrido.

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