A mãe PM que matou um ladrão em Suzano e a espetacularização da irresponsabilidade. Por Nathalí Macedo

A tragicômica série da vida real House of Brazil mostrou seu timing afiadíssimo nesse Dia das Mães.

Uma PM à paisana reagiu a um assalto em Suzano-SP e disparou contra o ladrão, que morreu no hospital.

A cena foi filmada em um ângulo privilegiado e o vídeo viralizou na internet: não só pelo ângulo, mas porque o treinamento militar, quando bem aproveitado, faz com que uma cena de morte que poderia ser banal pareça um filme de guerra.

Bom entretenimento para a nossa urgente – e, por vezes, irresponsável – sede de justiça.

À primeira vista, já dá pra notar que Kátia da Silva Sastre, que tinha ido participar de uma festa de comemoração do Dia das Mães na escola das filhas, estava preparada para o que decidiu fazer.

Foi avisada por outra mãe sobre a presença do assaltante armado com um 38 na porta da escola, se afastou da cena, sacou o próprio revólver e ressurgiu apontando a arma para o ladrão. Depois de ferí-lo, rendeu-o e desarmou-o, enquanto as crianças e mães fugiam da cena caótica.

A mãe PM foi homenageada, com direito à presença do governador do estado, pela corporação que integra há vinte anos.

Tratada como heroína, ela explicou que reagiu depois que o assaltante disparou duas vezes contra as crianças.

“Essas pessoas [criminosos] se descontrolam facilmente. Eu não sabia se a reação dele seria atirar nas crianças ou na mãe ou no responsável que estava na porta da escola. Pensei apenas em defender as mães, as crianças e a minha própria vida e da minha própria filha (…) Minha preocupação foi que minha intervenção fosse mais próxima a ele. Cessar a agressão dele de forma que não machucasse ninguém”, falou.

A intervenção não machucou ninguém (além do próprio assaltante), e a carnificina virou espetáculo, como de costume: o governador aplaudiu, os programas sensacionalistas mostraram o rosto do bandido hospitalizado em alta definição, e a história de final feliz pra (quase) todos virou entretenimento.

A repercussão do caso tem a ver com a sede de justiça com as próprias mãos que vem acompanhando a indignação acumulada do brasileiro, em um país em que a legalização das armas de fogo é defendida por uma parcela considerável da população.

A cena de uma mãe rendendo e matando um assaltante na porta de uma escola pode parecer, aos desavisados – pessoas que gostam de vídeos violentos, em geral, são desavisadas – romanticamente cinematográfica.

Até o Seu Zé, contador, que defende a legalização de armas para o cidadão de bem, deve ter tido a ligeira impressão de poder defender a si mesmo e à própria cria com 0,5% de coordenação motora e problema de hipertensão, mas o fato é que o heroísmo não é pra qualquer um.

É privilégio de policiais ou dublês de filmes policiais, treinados para a guerra e para o espetáculo.

Vinte anos de treinamento não são vinte dias, e nem mesmo isso garante que ninguém saia machucado numa cena de guerra urbana como esta.

E se o plano da policial falhasse como falhou a arma do ladrão no segundo disparo? E se uma criança aterrorizada fosse atingida? E se a moda pega no país que adora amarrar assaltantes no poste e açoitá-lo como a um bicho em frente às câmeras?

O problema não é apenas o ato em si, mas a espetacularização do ato – não apenas midiática, mas, neste caso, também política – no momento delicado em que uma onda de conservadorismo ameaça a própria ordem do país.

Espetacularizar um ato perigoso como reagir a um assalto – na presença de crianças, para aumentar a tensão – é no mínimo irresponsável.

Professor de Criminologia da Unisinos e advogado criminalista, Alexandre Dargél diz que reagir costuma ser mau negócio para o assaltado, que está em desvantagem. “A vítima é pega de surpresa. Na estatística, em menos de 10% dos casos ela tem sucesso”, conta.

Em vez de dar flores à policial, a corporação deveria tratar o caso com menos romantismo e mais realismo: reagir a assaltos não é bonito e não é recomendável, porque não estamos em um filme policial.

Não dá pra esperar esse tipo de postura dos militares – nem de quem pede a volta dos militares – mas a ínfima esperança de democracia que ainda vive em mim esperava isso de um governador e, quem sabe, das pessoas de bom senso.