“A Maldição da Residência Hill”, uma série que causa obsessão à primeira vista. Por Tiago Barbosa

A Maldição da Residência Hill

POR TIAGO BARBOSA

A Maldição da Residência Hill, série da Netflix, usa o suspense e a sobrenaturalidade para provocar, de forma instigante e assustadora, reflexões sobre os fantasmas presentes no seio da família e a relação de pais e filhos com o lar enquanto espaço físico e afetivo.

A história se desenrola a partir da mudança de uma família para um imóvel maldito e do impacto na vida dela, duas décadas depois, dos acontecimentos trágicos ocorridos na casa. A atmosfera de terror é típica de produções do gênero, mas, aqui, ela fortalece o drama e ajuda a decifrar aspectos psicológicos dos personagens.

A força oculta, assim, tem sempre viés ambíguo. Pais não creem em histórias dos filhos porque são mal-assombradas ou se recusam a ouvi-los? O fantasma é a projeção do medo de amadurecer ou figura extraterrena? É negação da realidade, fuga ou ser de outra dimensão? Qual o limite para manter os filhos presos ao lar? Deixá-los sair de casa é um fantasma intransponível?

Todas as questões são conduzidas por um roteiro bem armado e engenhoso, através do qual tempos distintos se misturam sem perder a lógica e cenas se fecham de maneira eficaz.

A distribuição de monstros escondidos nas cenas é um recurso sutil, feliz e de função dupla: manter constante o medo e mostrar como o fantasma (ou problema) está sempre presente, mesmo quando inerte e aparentemente inofensivo.

A série de Mike Flanagan é inspirada em livro de Shirley Jackson (1959), já levado para as telas em 1963 e 1999.

O diretor modificou a composição original (transformou Theo, Nell e Luke em irmãos e uniu a eles Shirley e Steven) e constituiu uma teia de sangue onde antes havia estranhos – a decisão favorece a série porque os novos laços afiançam a questão familiar no centro da trama.

As implicações familiares são ampliadas por particularidades da vida dos irmãos: Theo é sensitiva, Nell frequenta um psiquiatra, Luke é dependente químico, Shirley tem uma funerária e Steven vira best-seller ao narrar a infância medonha na casa mal-assombrada.

A série monta, assim, um quebra-cabeça psicológico para revelar como se formam e se completam as personalidades – sempre sob a ambivalência de fantasmas (internos ou externos), um pai escorregadio (presente e ausente) e uma mãe atormentada (por medos reais e sobrenaturais).

A sensação de dubiedade é aguçada pelo uso da câmera em longos planos sequenciais e movimentos circulares nos quais personagens, monstros e sensações entram e saem de cena sem tempo para duvidar.

A confusão sensorial se intensifica pelo papel desempenhado pela casa, espaço fértil para alucinações compatíveis tanto com o afeto dos moradores quanto com as peripécias fantasmagóricas.

A Maldição da Residência Hill é, sem dúvida, uma obra interessante por ressignificar o terror e permitir reflexão existencial onde costumeiramente habita apenas o susto.

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