A manipulação ideológica (e mentirosa) do “déficit das estatais”. Por Miguel do Rosário

Atualizado em 29 de novembro de 2025 às 16:40
Correios. (Elza Fiúza/Agência Brasil/Agência Brasil)

“Não há nenhuma razão de natureza política, estratégica, econômica que justifique a presença de empresas estatais no Brasil”, disse Maílson Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, em entrevista à Globonews. Para ele, até a Petrobras poderia ser entregue ao setor privado, porque o país “já não precisa mais de estatais”. É a expressão mais cristalina da visão neoliberal que domina parte da elite econômica e que pauta boa parte da cobertura jornalística sobre o tema.

Essa declaração não aparece isolada. Ela ajuda a compor o clima político e ideológico que molda a forma como a imprensa interpreta — e distorce — os dados fiscais. E prepara o terreno para transformar qualquer dado parcial em narrativa alarmista contra as empresas públicas.

E há outro detalhe que a imprensa neoliberal jamais menciona: o exemplo da China. Lá, as empresas estatais formam a espinha dorsal da economia, representam parcela significativa do PIB, sustentam investimentos em infraestrutura, mantêm o desemprego baixo e permitem que a carga tributária sobre empresas e cidadãos seja muito menor que a brasileira. As estatais chinesas não são tratadas como problema; são tratadas como instrumentos de desenvolvimento. São lucrativas, financiadoras do crescimento e fundamentais para amortecer crises. É a antítese completa da narrativa vendida aqui.

É nesse ambiente que a imprensa neoliberal se finge de sonsa.

Ela usa um dado do Banco Central que fala em “estatais federais”, mas exclui Petrobras, Banco do Brasil, Caixa, BNDES e todo o sistema financeiro público. Mesmo assim, transforma esse recorte parcial em narrativa sobre um suposto rombo generalizado nas empresas públicas.

O número divulgado vem de uma linha da tabela de Necessidades de Financiamento do Setor Público. Essa linha inclui apenas cerca de vinte estatais não dependentes, criadas para fins fiscais e não para representar o panorama real das empresas públicas brasileiras. A imprensa sabe disso, mas usa o dado como se fosse a situação completa.

No acumulado de janeiro a outubro, esse recorte parcial do Banco Central mostra um déficit de aproximadamente seis bilhões de reais. Esse valor corresponde a apenas 0,06% do PIB e vem caindo nos últimos meses. Em julho estava em 0,08% do PIB, em agosto e setembro havia recuado para 0,07%.

O indicador ideal para avaliar tendência fiscal é o acumulado em doze meses até outubro de 2025. Nesse caso, o mesmo subitem, um grupo restrito de estatais, registra um déficit de cerca de oito bilhões de reais, algo em torno de 0,05% do PIB. É um número quase irrelevante diante do déficit nominal total do setor público, que alcançou 1 trilhão e 24 bilhões de reais no período de doze meses até outubro de 2025, equivalente a 8,18% do PIB.

Antes que os alarmistas tentem usar esse dado para brandir seu terrorismo fiscal, é preciso observar a trajetória. Em outubro de 2024, o déficit nominal estava bem maior, em 9,40% do PIB. Ou seja, mesmo com juros mais altos hoje, o governo está conseguindo estabilizar e mesmo melhorar as contas públicas.

No auge da pandemia, em 2020, o déficit nominal do setor público brasileiro chegou a 13,48% do PIB.

A tendência tem sido de estabilidade e queda, o que é quase um milagre — ou melhor, resultado direto do esforço fiscal do governo — mesmo em ambiente de juros elevados.

As previsões do mercado sugerem estabilidade do déficit nominal em 2026 e queda para 7% em 2027 e 2028.

Dentro do pequeno grupo de estatais incluídas no recorte do Banco Central, o resultado negativo é puxado principalmente pelos Correios. A empresa sofre impactos profundos da mudança tecnológica: queda do volume de cartas, avanço de serviços digitais e competição privada intensa. Em 2024, registrou déficit próximo de três bilhões e duzentos milhões de reais.

A Infraero também contribui de forma marginal, após perder receitas com a concessão de aeroportos. As demais empresas do recorte apresentam resultados positivos ou estáveis. O governo já está ajustando os Correios para adequar a empresa ao novo ambiente tecnológico e operacional.

Quando se olha o universo completo das estatais federais, a narrativa do “rombo” simplesmente desmorona.

Segundo o Relatório Agregado das Empresas Estatais Federais 2025, ano-base 2024, as 44 empresas estatais de controle direto registraram lucro líquido de 116,6 bilhões de reais. Realizaram 96 bilhões de reais em investimentos. Faturaram 1,3 trilhão de reais. E pagaram 152,5 bilhões de reais em dividendos e juros sobre capital próprio, dos quais 72,1 bilhões foram diretamente para a União.

A Petrobras sozinha distribuiu 100,7 bilhões de reais em dividendos no ano. Os bancos públicos somaram 79,6 bilhões de reais em lucro. São esses números que somem das manchetes que tentam vender a ideia de que o setor estatal está quebrado.

Lucro líquido das principais estatais federais em 2024. Imagem: reprodução

E é aqui que entra um ponto importante. O governo divulga os números completos, mas apenas em relatórios anuais, publicados muito tempo depois do ano fiscal encerrado. É um erro estratégico. A Sest já possui o método, os sistemas e as bases de dados para consolidar o desempenho das estatais. Nada impede que o governo publique relatórios mensais abrangendo todas elas — inclusive Petrobras e bancos públicos. Isso desmontaria preventivamente as narrativas alarmistas e impediria a imprensa de transformar um recorte limitado do Banco Central em verdade oficial.

O que existe, de fato, é um problema localizado nos Correios, agravado por um choque tecnológico profundo. O restante é narrativa ideológica destinada a desqualificar empresas públicas que são lucrativas, estratégicas e essenciais para o desenvolvimento do país.

As estatais brasileiras, no conjunto, dão lucro, investem, geram empregos e devolvem recursos substanciais ao Tesouro. Elas ajudam a evitar aumentos de impostos e sustentam áreas estratégicas da economia. O suposto “rombo das estatais” não passa de uma fake news cuidadosamente construída, com finalidade política muito clara.

Publicado originalmente em O Cafezinho