A marca de 500 mil mortos é responsabilidade de Bolsonaro e de uma sociedade complacente

Publicado originalmente no Blog de Alberto Carlos Almeida

Nunca pensei que veria ocorrer meio milhão de mortes em pouco mais de um ano em meu país por causa de uma doença. Há a estatística fria e distante e há também os casos que vimos, conhecemos, ouvimos falar.

Cada um de nós perdeu pessoas próximas ou não, crianças ficaram órfãs, filhos adultos que conviveram a vida inteira com seus pais acabaram por perdê-los antes da hora, muitos deles septuagenários ou mesmo na faixa dos 80 anos de idade que ainda viveriam por vários anos, famílias dilaceradas, crianças que serão criadas pelos avós, arrimos de família que se foram, sequelas graves que permanecerão presentes nas vidas de quem teve Covid e se recuperou, tudo isso e muito mais ocorreu sem que o Presidente da República tivesse ido uma vez sequer visitar doentes hospitalizados.

Não quero chover no molhado ao enumerar dezenas de adjetivos que caracterizem a postura de Bolsonaro face a toda esta tragédia. Já há dezenas de artigos, reportagens, postagens realizando esta importante tarefa. Vale aqui adicionar algumas reflexões acerca desta total insensibilidade do mandatário máximo da nação diante do mais triste e profundo sentimento humano, a dor causada pela perda precoce e evitável de pessoas próximas. Como chegamos até aqui?

O sistema político brasileiro possibilitou que um obscuro deputado do baixo clero se candidatasse a presidente. Isso dificilmente teria acontecido se tivéssemos como na Alemanha, Espanha, França, Portugal, Itália, Reino Unido e Estados Unidos uma lei eleitoral que permitisse no máximo a existência de quatro grandes partidos na câmara baixa. Por causa deste sistema com muitos partidos pequenos e médios, todos eles muito fracos e incapazes de fazer efetiva oposição ao PT, outros atores de fora da política – do judiciário e da mídia – entraram em cena para ajudar os que estavam já há mais de uma década distantes dos cargos e recursos orçamentários de Brasília a retornarem aos salões do poder.

Foi-se um vale tudo que resultou na completa destruição da reputação, à época, de “todos que estão aí”. Os ataques aos políticos e ao sistema foram tão amplos, persistentes e generalizados que o eleitorado decidiu escolher aquele que melhor se encaixava no figurino da anti-política. Até aí tudo bem, desde que nada muito excepcional acontecesse no mundo. Aí veio uma pandemia.

Temos até aqui um cenário equivalente àqueles que antecedem os acidentes aéreos: várias falhas improváveis ocorrem de maneira sucessiva resultando no pior. A aeronave entra em pane e o piloto, que não pode ser substituído em voo, é um despreparado para contornar a emergência. A sorte é que existem instrumentos, as instituições, capazes de levar o avião a aterrissar, ainda que com inúmeras avarias e muitos mortos e feridos.

O presidencialismo é rígido, uma vez eleito o presidente é muito difícil tirá-lo da cadeira. Elegemos Bolsonaro. Uma parte do funcionamento das instituições permite que ele seja retirado, mas a parte predominante deste mesmo funcionamento prevê que ele governe, tal como ocorreu com Fernando Henrique, Lula e Dilma. É defenestrado do poder o presidente que perde o apoio da Câmara, a decisão de aprovar um impeachment é política, pois é tomada por políticos. O argumento jurídico é tão somente um detalhe deste caminho para a deposição.

O apoio de um presidente na Câmara está conectado com o apoio que ele tem no eleitorado. Dilma perdeu o mandato depois de passar 12 meses com a soma de ótimo e bom em 10%. Os deputados só votaram contra ela depois de um longo processo de desgaste. O mesmo não acontece com Bolsonaro. Aqui entra a principal reflexão, por que?

Olhemos para nós, seres humanos, e perguntemos: até que ponto nos importamos com a morte de outras pessoas? Até onde conectamos tais mortes com a ação ou inação do Presidente da República? Toda sociedade é dividida e a pluralidade é irredutível. Há aqueles que se importam muito com as mortes precoces de seres humanos, há também os que “não estão nem aí”, e entre estes dois extremos há todo tipo de gente. O mesmo é verdade para relacionar o que faz o presidente com a tragédia humana que vivenciamos. Há os que responsabilizam a força do vírus, outros argumentam ser um castigo divino para uma sociedade em decadência moral. Há os que atribuem aos governos as mazelas da sociedade.

O conjunto de crenças de nós brasileiros é diferente de muitos habitantes de outros países. Quem escreve este artigo e quem o lê provavelmente concorda que muitas mortes teriam sido evitadas se Bolsonaro tivesse agido como um Boris Johnson ou uma Ângela Merkel. Porém, há milhões de brasileiros que não pensam assim, eles são maioria. Não é possível contar com esse pessoal para pressionar Bolsonaro a agir de maneira diferente e, portanto, Bolsonaro não muda. É difícil reconhecer isso, mas esse é o nosso Brasil. A marca de 500 mil mortos por Covid é sim responsabilidade de Bolsonaro, mas também é de uma sociedade complacente em relação a seu Presidente, é uma obra coletiva.

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