A marcha da insensatez: Barrar Lula, como deve fazer o TSE amanhã, aprofunda a crise. Por Joaquim de Carvalho

Barroso e Rosa Weber na marcha dos insensatos

A escritora Bárbara Tuchman chamou de marcha da insensatez vários episódios da história em que a truculência dos detentores do poder acabaram por implodir nações e instituições, alguns resultaram em guerra.

O que provocou a ruptura na Igreja Católica, por exemplo, dando origem ao protestantismo, foi o poder sem limites exercido com desumanidade pelos papas da Idade Média.

A independência dos Estados Unidos, apontou ela, foi precipitada pela mão de ferro que pesou sobre a antiga colônia britânica pelo rei Jorge III.

A primeira guerra mundial também teve origem em decisões equivocadas dos poderosos, não apenas governantes.

Em todas essas decisões, foi contrariada a manifesta vontade popular.

Bárbara morreu em 1989, depois de escrever o livro “A Marcha da Insensatez — de Tróia ao Vietnã”, mas, se estivesse viva e se tivesse interesse acadêmico pela América do Sul, teria matéria-prima para novos estudos, a partir do que acontece hoje no Brasil, especificamente do caso Lula.

Sem poder fazer campanha, o ex-presidente lidera as pesquisas de intenção de voto com praticamente metade dos votos.

Ganharia a eleição no primeiro turno, mas, ainda assim, dificilmente poderá disputar.

A presidente do TSE, Rosa Weber, convocou sessão para amanhã e, embora não tenha divulgado a pauta, tudo indica que servirá para entregar a cabeça de Lula.

Ele teria o registro indeferido e, num primeiro momento, não poderia nem sequer aparecer no horário eleitoral como candidato a presidente.

Em condições normais, Lula participaria da campanha até a decisão final do Supremo, ao qual caberá recurso, mas o Brasil não vive hoje um período de normalidade institucional.

O provável indeferimento da candidatura de Lula, decidido com tramitação relâmpago, é mais um capítulo da marcha da insensatez.

Primeiro se atropelou Dilma, ao retirá-la da presidência, sem crime de responsabilidade.

Depois, Lula foi denunciado por um Ministério Público Federal que parece uma tropa de cruzados.

Moro o condenou a 9 anos e seis meses de prisão sem prova e descrição de conduta criminosa — o condenou por atos indeterminados.

O TRF-4, num velocidade incomum, confirmou a condenação, e elevou a pena para 12 anos e um mês.

A Polícia Federal deixou de cumprir um alvará de soltura concedido em favor de Lula, para libertá-lo para fazer campanha.

As instituições brasileiras ignoraram o Comitê de Direitos Humanos da ONU em sua determinação para que garantissem a participação de Lula na campanha, até que seus recursos sejam julgados em “procedimento justo”.

A lista de atitudes com a marca da falta de bom senso é bem maior, mas não é necessário transcrever todos os capítulos para concluir que os autoridades de Estado estão levando o Brasil para um ambiente sombrio, de difícil retorno.

No livro A Marcha da Insensatez, Bárbara Tuchnan mostra que o resultado invariável das decisões equivocada recaem sempre sobre os interesses de quem as tomou.

Rosa Weber e Luís Roberto Barroso, este relator do registro da candidatura de Lula, deveriam atentar para isso, porque não conseguirão destruir Lula.

O ex-presidente encarna o espirito do tempo, e não será destruído.

Ficará para sempre a marca da injustiça, e, no curto prazo, é ela que alavancará a candidatura de Haddad, seu substituto.

Melhor seria Lula, já testado e aprovado e é por isso que a candidatura dele interessa muito mais ao Brasil do que a ele próprio.

Num momento de profundas incertezas, Lula seria parte da solução.

Mas será barrado.

Afinal, se vivêssemos sob o predomínio da razão, não estaríamos na marcha da insensatez.

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