“A médica que nos atendeu agiu com deboche”: o relato de aluno da USP com coronavírus

Universidade de São Paulo. Foto: USP Imagens

Publicado no site da Carta Campinas, texto original do perfil Facebook do autor

“Gente, boa noite.

Sou o Thiago (do coronavirus rsrs)… Estou bem assustado com essa repercussão mas estou escrevendo aqui em consideração as vcs colegas de curso..

Primeiramente, gostaria de dizer que estou bem, embora, até agora, ninguém tenha perguntado sobre o meu estado de saúde, mas ok.. Com a repercussão que tudo isso tem tomado, decidi compartilhar com vocês o que tem acontecido de maneira a esclarecer a quem possa estar com medo de ter tido contato comigo, além de evitar também maior propagação de boataria envolvendo o meu nome ou julgarem que coloquei propositalmente pessoas em risco – sinal dos tempos de hoje em que mais vale um pré-julgamento – nada de novo sob o sol. Peço também a gentileza de manter o sigilo do meu número de telefone pq to de boa da globo me ligando aqui na minha quarentena…

Na quinta feira, dia 27, minha esposa (ainda estamos casados no papel mas, na verdade, estamos separados já faz um tempinho) chegou da Espanha (tendo passado pela Italia) mas sem qualquer sintoma. Tive contato com ela na quinta e sexta pois ela dormiu na minha casa e na sexta ela foi para a casa dela. Na terça ela não se sentiu bem e nos dirigimos ao Hospital Universitário para informar que ela tinha sintomas que podiam ser compatíveis com o coronavirus e que havia passado pela Italia. Por iniciativa nossa, já fomos ao HU usando máscara.

A primeira médica que nos atendeu agiu com total deboche e pouco caso -chegou a rir da gente. Atendeu a gente sem máscara – isso porque ela estava no plantão da emergência do HU – nem encostou nela e disse que as pessoas “estão surtadas” com o coronavirus. Insistimos e ela simplesmente nos deu as costas e saiu andando. Fomos até a ouvidoria do HU solicitar que alguém nos atendesse.

Após muita insistência, a chefe do plantão pediu que nos dirigíssemos a uma sala que ela nos atenderia.Após o atendimento, ela disse que os sintomas não eram plenamente compatíveis com o corona e que provavelmente era só uma coincidência. Mas, como protocolo, fez a coleta do exame. Em relação a mim ela foi categórica que EU NÃO DEVERIA ME PREOCUPAR, que eu podia voltar ao trabalho normalmente, ir a aula e levar a vida normal. Falou que não havia necessidade de usar máscara e os cuidados deveriam ser os mesmos de qualquer pessoa (álcool gel, lavar as mãos, etc).

No dia seguinte (quarta, dia 4), estive no HU para uma consulta de rotina e informei ao médico a situação e ele também disse que as pessoas estão surtadas demais, fakenews e piriri pororó e que não precisava me preocupar. Liguei para uma amiga médica e ela disse que possivelmente era só um resfriado. Aquela história, repetem tanto mentiras que quando chega a verdade agnt não acredita… Na quarta mesma ela não tinha mais nenhum sintoma..

Com isso, voltei ao trabalho normalmente e, a noite, fui a aula desencanado, absolutamente convencido de que não era nada e tinha caído na histeria coletiva do coronavirus.

Na quarta a noite conversei com várias pessoas que ainda não sei o nome, caneta da lista de presença passou por mim, livros, etc.. Já havia até esquecido do que tinha acontecido.

Mas tudo mudou na quinta de manhã quando acordei com febre e com a garganta ardendo. Fui imediatamente ao HU e informei sobre a situação. Apenas neste momento o meu caso foi tratado com o devido protocolo. Fui colocado em uma sala isolado e um médico e uma residente vieram me atender com toda aquela roupa como se eu fosse um objeto radioativo – o procedimento correto. A médica residente falou que os meus sintomas eram compatíveis com o corona e fez a coleta para o exame. APENAS NESTE MOMENTO RECEBI A ORIENTAÇÃO DE FICAR EM CASA e recebi um atestado que me afastava do trabalho por 10 dias.

Na sexta a noite o caso da minha ex-esposa foi confirmado e neste momento comecei a tratar o meu também como praticamente confirmado. Desde então estamos juntos “de férias com a ex”, em casa, isolados – só a gente e o cachorro – que está fora de perigo. Desde então estou em contato com a vigilância sanitária de pinheiros e pedindo que eles informassem a USP oficialmente para que as devidas medidas pudessem ser tomadas. A notícia que recebi era que, enquanto o meu exame não se confirmasse, nada poderia ser feito.

Hoje finalmente saiu o resultado confirmando. A esta altura eu já tinha conversado com a professora Sueli Furlan informando tudo isso que estou escrevendo aqui.

Espero ter esclarecido todo o necessário referente a esta situação de modo que as pessoas que estiveram na aula do dia 04 a noite de Fundamentos Naturais da Geografia possam tomar os devidos cuidados. Espero também ansiosamente que, depois que tudo isso passar, possa levar minha vida normal e reste apenas os memes e que eu não fique sem grupo nos trabalhos ou não queiram que eu vá ao trabalho de campo…

Até agora, tudo que esta sendo dito e essa repercussão toda acaba nos assustando e causando um pouco de sentimento de culpa, mas vir falar aqui da um certo alívio. Caso alguém tenha mais alguma dúvida pode perguntar. Abraços (após a quarentena hehe)”

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!