A melhor telenovela dos últimos 40 anos

 

Talvez seja uma traição da memória afetiva, mas novelas já foram boas ou relativamente boas. Ou não eram tão terríveis. Havia, ao menos, uma certa coerência na trama e não tantos solavancos absurdos para impedir — inutilmente — o Ibope de desabar. Também pode ser nostalgia, mas não se berrava tanto. Sem contar o detestável merchan.

Mas há um bom folhetim no ar e ela se chama “Downton Abbey”. Passa no canal GNT. Tecnicamente é uma série, mas tem todos os elementos de um bom drama de época do tempo em que você acreditava em “Escrava Isaura” e o mundo podia ser mais inocente. Esqueça o cinismo, a violência, a nudez, a modernidade, a ousadia narrativa de “Breaking Bad”, “Mad Men”, “Game of Thrones”, “Boardwalk Empire” etc.

“Downton Abbey” é o nome da imensa propriedade em Yorkshire de uma família de aristocratas ingleses do início do século passado. O império onde o sol nunca se punha está indo para o buraco, a fortuna daquele clã também, juntamente com seus valores, e ninguém sabe muito bem o que fazer com isso.

Cora e Robert Crawley, condessa e conde de Grantham, têm três filhas. A mais velha, Mary, está em idade de se casar. Como a herança não é transmitida para mulheres, arranjou-se um casamento com um primo distante e o herdeiro legítimo. Mas ele desaparece no desastre do Titanic e seu substituto é outro primo, o jovem advogado Matthew.

A única maneira de Mary manter a grana onde está é desposar Matthew, o burguês. Conseguirão Mary e Matthew superar as barreiras de classe? E seus pais, aceitarão? Como pano de fundo, a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa, os primeiros sinais de liberação feminina, a ascensão dos EUA, o sistema de classes britânico. A vasta criadagem — amas, lacaios, mordomos, motoristas — oscila entre o ódio e a lealdade cegos a seus chefes.

Vilões são vilões, mocinhos são mocinhos. Não há espaço para antiherois. A fotografia é esplêndida e o dinheiro gasto na produção aparece gritando em cada capítulo. Ganhou alguns Emmys e Globos de Ouro, entre eles o de melhor série dramática.

O fato de ser uma história contada de maneira, digamos, ortodoxa não impede que haja surpresas, reviravoltas e polêmicas. Uma seqüência de estupro de uma camareira causou comoção. O autor, Julian Fellowes (vencedor de um Oscar pelo roteiro de “Assassinato em Gosford Park”) se defendeu. “O ponto é que não fazemos nada de maneira gratuita”, disse. “Nós estamos interessados em explorar emoções e os efeitos que elas causam nas pessoas”.

Alguns críticos enxergaram em “Downton Abbey” esnobismo, “necrofilia cultural” e “ignorância social”. É mau humor. Apenas que os criados não são todos virtuosos e os ricos não são um bando de bêbados hipócritas decadentes. Ok, é um mundo mais simples e de mentira, mas a intenção não é fazer sociologia. Provavelmente falte uma coisa a “Downton Abbey”: Sônia Braga. Mas, como diz Lady Violet (Maggie Smith), uma excelente caricatura de uma dama sofisticada e mestre das tiradas witty: “Não seja derrotista, querido. Isso é muito classe média”.

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