A memória preservada por Fernando Henrique. Por Moisés Mendes

Atualizado em 17 de abril de 2026 às 7:22
Fernando Henrique Cardoso e Lula. Foto: Reprodução

Fernando Henrique Cardoso, decisivo como sociólogo, historiador e político para a memória coletiva que guardamos de tempos distantes e recentes, não se lembra de mais nada. Está com Alzheimer em estágio avançado, aos 94 anos.

FH é autor de um dos livros mais importantes para a compreensão do que é o Rio Grande do Sul, sua formação, seu povo e seus desvios de conduta, nesse momento de intensificação da adesão da velha direita ao bolsonarismo.

FH publicou ‘Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional’, sua tese de mestrado, quando tinha 31 anos. É a reconstituição mais profunda do que foi a escravidão no Rio Grande do Sul, quando desmontou a ideia de que aqui o escravismo havia sido cordial.

Na verdade, foi intenso e cruel, nas charqueadas da região sul, e economicamente estúpido, por manter uma mão-de-obra cativa que seria mais barata se assalariada. FH definiu a escravidão gaúcha como a economia do desperdício.

Segundo alguns autores, entre os quais Décio Freitas, exagerou ao igualar a escravidão das fazendas, explorada de forma extensiva e sem a imposição da violência, com o trabalho escravo intensivo da indústria do charque.

Na volta do exílio, foi parceiro de Lula na luta pela redemocratização. Desentenderam-se mais tarde, mas o que sabemos do que ficou foi uma admiração mútua sobreposta às desavenças.

Fernando Henrique ameaçou construir aqui o que o Brasil nunca teve: a ilusão de que o país poderia ter uma social-democracia, à moda europeia, que contemplasse interesses dos trabalhadores e do empresariado com índole democrática e afeito ao que chamavam de justiça social.

O seu PSDB não deu certo. E foi um governante liberal, dedicado às privatizações, apesar de ter conseguido o feito – que deve ser creditado aos economistas da sua equipe – de conter a hiperinflação, como ministro da Fazenda de Itamar.

Conversei com FH por duas vezes, na eleição de 2006, quando Geraldo Alckmin era o candidato do PSDB. Foi no Colégio Santo Américo, no Morumbi, no segundo turno, onde o agora vice de Lula foi votar.

Enquanto Alckmin votava, cercado pelos fotógrafos, aproveitei e fiz uma entrevista rápida de uns 15 minutos no pátio, em pé, sem que ninguém mais se interessasse pela conversa. Ele gostava de falar do Rio Grande do Sul.

Geraldo Alckmin votando em 2006. Foto: Reprodução

Depois, já como ex-presidente, em 2003, conversamos na Farsul, antes de um evento dos fazendeiros, em Porto Alegre. Foi considerado irônico e irritou o agro quando disse que nunca visitou a Expointer, como presidente, porque não tinha sido convidado.

Claro que havia sido. Tentou ser engraçado, mas a brincadeira não funcionou e a plateia e ex-dirigentes da federação reagiram com irritação. FH não vinha porque temia ser vaiado.

Mas o que mais conseguimos dele, eu e meus colegas Luiz Antonio Araujo e Nilson Mariano, foi uma entrevista sobre a escravidão no RS, em 1998, assim combinada: mandaríamos as perguntas e ele gravaria as respostas.

E assim foi feito. Foram quatro páginas de entrevista num caderno especial da Zero Hora sobre escravidão, que nós três coordenamos, com a participação de textos dos pensadores gaúchos que se dedicaram, ao período do escravismo.

É o depoimento precioso de um carioca que via o Rio Grande do Sul escravocrata como os gaúchos se negavam a ver. Isso é memória. É o que Fernando Henrique nos deixa.

Muitas vezes o critiquei, por questões pontuais da política. Mas faço o que Lula fez na entrevista que deu ao Brasil 247, ao DCM e à Fórum, ao elogiá-lo como figura importante para a democracia.

Lembrando sempre que, na hora grave do segundo turno de 2022, declarou apoio público a Lula. Quando mais o fascismo se esparrama, mais sentiremos falta de homens público do tamanho de Fernando Henrique Cardoso. Também isso é essencialmente memória.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/