A minha geração sabe o que é perder a democracia. Por Ana Maria Magalhães, atriz e cineasta

Ana Maria Magalhães

Publicado na Carta Maior

POR ANA MARIA MAGALHÃES, atriz e cineasta

No Brasil, o movimento de 1968 eclodiu pela confluência das contestações de estudantes e artistas ao regime militar consecutivas ao Golpe de 64. A escalada repressiva iniciada na UnB com demissões e prisões de professores e o envio de tropas militares ao campus se espalhou por outras cidades e culminou no Massacre da Praia Vermelha, em setembro de 1966, quando tropas da PM e do Exército encurralaram e espancaram seiscentos estudantes na Faculdade de Medicina da atual UFRJ.

A partir daí a reorganização do movimento estudantil incorporou às reivindicações da autonomia universitária, ampliação de vagas e extinção da cobrança de anuidades a luta contra a ditadura em sucessivas greves e protestos nas ruas.

Enquanto isto, pelo seu lado, os artistas se uniam em torno de manifestos contra a censura. Inconformados com a imobilidade da oposição e o silêncio da imprensa diante do avanço da ditadura que se fazia passar por democrata, um grupo de intelectuais decidiu denunciá-la perante a conferência da OEA no Rio de Janeiro, logo após a edição do AI-2 que eliminava o voto popular, instituía eleição indireta para a presidência da República, ampliava os poderes do Executivo em detrimento do Legislativo e legitimava a militarização do processo judicial, em novembro de 1965.

Por sugestão de Antonio Callado, o também escritor Carlos Heitor Cony, o poeta Thiago de Mello, os cineastas Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Mario Carneiro, o jornalista Marcio Moreira Alves, o diretor teatral Flávio Rangel e o embaixador Jayme Azevedo fizeram o seu protesto pacífico. 

Ao descer do automóvel em frente ao Hotel Gloria, o marechal presidente Castello Branco foi surpreendido por faixas estendidas no meio da rua, vaias e gritos que clamavam por democracia, eleições livres e o célebre Abaixo a ditadura! A prisão dos Oito da OEA atingiu o objetivo de revelar que o país seguia sob regime militar fechado.

Os jornais brasileiros tiveram que noticiar o evento depois do destaque nas primeiras páginas do Washington Post, New York Times e Le Monde, e do manifesto assinado por personalidades como o filósofo Sartre e o cineasta Godard. Desde então, a mobilização de artistas e intelectuais se desenvolveu em torno da politização da luta contra a censura ao teatro, cinema, música e meios de comunicação.

A Constituição de 1967 centralizou a censura que avançou em cortes e proibições às peças teatrais. A ignorância dos censores e os prejuízos econômicos decorrentes levaram setores da classe artística, avessos à participação política, mas esclarecidos, a se juntarem aos protestos contra o regime.

Os artistas formaram uma comissão ampla de representantes do teatro, cinema, música, literatura e artes plásticas para encaminhar o pedido de extinção da censura ao presidente daRepública e órgãos competentes. No morde e assopra, o general Juvêncio Façanha chamou a turma do teatro de debilóide, o cinema de arte de sem – vergonhice, as atrizes Odete Lara e Tônia Carrero de vagabundas, e avisou “ou vocês mudam ou vocês acabam”. 

Enquanto isto, o ministro da Justiça Gama e Silva aparentava disposição ao diálogo com os artistas. Foi assim que se chegou à organização da Campanha Nacional Contra a Censura, em Defesa da Cultura, lançada em janeiro de 1968 na sede da ABI. 

Compareci com Vera Valdez que observou a beleza de Nelson Pereira dos Santos que compunha a mesa. Para mim, que o imaginava sisudo, foi uma grata surpresa vê-lo pela primeira vez. Centenas de artistas assistiram a leitura do manifesto pelo ator Paulo Autran, que convocava a opinião pública a lutar em defesa da arte e da cultura contra a intolerância e a mediocridade de um regime que as encarava como atividade perniciosa e atentatória à segurança nacional.

O caldo engrossou com a aplicação de cortes na montagem de Um bonde chamado desejo, de Tennessee Williams, os quais a atriz Maria Fernanda não aceitou. Nas cinzas do Carnaval de 1968, a classe teatral, liderada por Oduvaldo Vianna Filho, promoveu uma greve que levou o protesto contra a censura às ruas.

Lá estava eu, atriz principiante aos 18 anos, marcando presença, empunhando cartazes e colhendo assinaturas de quem passava defronte às escadarias do Teatro Municipal. Diante do cerco da cavalaria da PM no encerramento da greve de três dias, Tonia Carrero encabeçou as negociações com o ministro Gama e Silva que garantiram o grande final.

Em seu discurso, o diretor Flavio Rangel evocou os soldados que lutaram em campos de Europa na defesa da democracia e determinou que atrizes como Cacilda Becker e Tonia Carrero, que representavam o matriarcado teatral brasileiro, saíssem à frente da passeata até o Monumento dos Pracinhas onde depositamos uma coroa de flores em homenagem aos combatentes.

Daí saiu a foto das atrizes de mãos dadas que hoje equivocadamente se atribui à passeata dos 100 mil. 

Eva Todor, Tonia Carreiro, Dina Sfat, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengel

Em março, ao final da sessão de uma peça no Teatro Opinião da qual eu participava, soubemos da morte do estudante Edson Luís. Parte do elenco acompanhou Vianinha ao velório na Cinelândia. Antes, passamos pelo cemitério onde fizemos uma vaquinha para comprar uma coroa de flores em nome da classe teatral. 

No dia seguinte, a emocionante passeata da Cinelândia até o cemitério São João Batista, em Botafogo, selou a união do movimento estudantil ao dos artistas na resistência à ditadura militar que depois se estendeu a setores da classe média e desembocou na passeata dos 100 mil.

A partir daí a repressão veio com tudo. Oficiais da linha dura forçavam a radicalização à direita. No segundo semestre, em São Paulo, o grupo paramilitar Comando de Caça aos Comunistas, o CCC,  invadiu os camarins do espetáculo dirigido por Zé Celso, Roda Viva, de Chico Buarque, e agrediu fisicamente os participantes, entre eles a atriz Marília Pêra.

Em todos os teatros, os elencos passaram a ler um manifesto de repúdio à ação violenta. Eu estava em cartaz com a peça Juventude em Crise,  no teatro da Praça Cardeal Arcoverde, em Copacabana.

Àquela altura, combinamos revezar os atores na leitura do manifesto para que nenhum de nós ficasse marcado. Mas na noite seguinte à minha leitura, apareceu uma senhora no bastidor e me disse singelamente que eu estava presa e deveria acompanhá-la. Caso contrário, ela seria obrigada a me levar presa no camburão. 

Ocorreu-me a ética profissional de compromisso com o público pela qual aleguei que ela esperasse o final do espetáculo e corri para a coxia. Entrei em cena com a sensação de que ela viria atrás de mim, mas então a minha prisão não seria secreta como ela pretendia.

Quando a vi sentada na plateia respirei aliviada. Assim que saí de cena avisei o que se passava ao Carlos Kroeber, administrador da companhia, que se pendurou ao telefone. Cada vez que o entrevia pela porta da sua sala, ele estava mais esbaforido e com as bochechas avermelhadas. Talvez através de Tonia, que era a produtora, um jovem advogado veio me encontrar na saída do teatro, ao lado do diretor Cecil Thiré com quem eu era casada e da policial.

Técio Lins e Silva insistiu que eu não assinaria a intimação sob o compromisso de posterior depoimento no SOPS, a superintendência federal de ordem política e social.

Na tarde seguinte, encontrei Técio no centro do Rio e depois de receber a sua orientação lá fomos nós para a Praça XV onde o delegado me interrogou e desfilou uma lista de artistas famosos, entre eles Claudio Marzo e Chico Buarque, para saber se os conhecia. De tanto confirmar que sim, decidi negar um, sem me dar conta que era justamente o Carlos Vergara, cenógrafo da peça que eu fazia. Mas o delegado não percebeu. Ao mesmo tempo em que me instava a negar a leitura do manifesto, seu interesse era me ameaçar se houvesse reincidência.

Foi um ano agitado pela militância no meio teatral, leituras e questionamentos políticos entre as posições reformistas e da luta armada e madrugadas febris. Assisti Fome de Amor, de Nelson Pereira dos Santos, que me fez pensar e me tocou a tal  ponto que me estimulou a mudar de vida. Separei-me e decidi retomar os estudos.

Durante a viagem de um mês pelo Brasil como manequim da América Fabril estudava para fazer o vestibular. O ano terminou com a publicação do AI-5, quando eu estava em São Paulo ensaiando Os sete gatinhos, de Nelson Rodrigues, sob a direção de Jô Soares.

Em dia de folga que vim ao Rio, a colega de vestibular que me hospedaria se apavorou a me ver à sua porta como se dissesse “some daqui”. Soube, então, que a minha prisão tinha sido noticiada em publicação clandestina, e, depois, soube que policiais tinham ido ao apartamento da minha família onde prenderam minha irmã e revelaram interesse em me prender também.

Naquela tarde cinzenta caminhei pela praia do Leblon numa tristeza infinita. Se por um lado eu submergi no Rio, tinha o meu nome estampado na porta do teatro em São Paulo. Felizmente as forças policiais das duas cidades não se comunicavam. Vim para as festas de fim de ano em suspenso, e depois para fazer as provas do vestibular.

Mas só voltei a morar na minha cidade ao final da temporada teatral e início das aulas no IFICS, em março de 1969, quando a fúria desencadeada pelo AI-5 amainara. Eles tinham ganhado a parada.

A minha geração e as anteriores que viveram aqueles tristes tempos sabem o que significa a perda do Estado democrático de direito.