A morte como negócio. Por Miguel Paiva

Aglomeração e o novo coronavírus. Foto: Pixabay

Originalmente publicado em JORNALISTAS PELA DEMOCRACIA

Por Miguel Paiva

Essa segunda onda da Covid, que também pode ser chamada de Primeira Onda, o retorno, vem a provar que ela é uma doença que ataca os pobres muito mais que os ricos. No inicio se achava que era uma doença de quem podia viajar e trazê-la de fora. Alguns casos comprovavam isso, mas logo o panorama mudou. Aqui no Brasil e nos países pobres as dificuldades de tratamento e internação começaram e evidenciar essa diferença social. Se não fosse o SUS aqui no Brasil teria sido ainda mais dramático. O SUS soube usar muito bem o aprendizado dos últimos anos em termos de pensamento coletivo e ações imediatas que impediu desgraça maior.

Mas o isolamento social no Brasil praticamente não existiu. Logo os empregados foram obrigados e retomar seus trabalhos, quem tinha trabalho, para não perder o sustento. Quem não tinha foi obrigado a sair às ruas também para descolar algum troco e poder comer. Ou seja, transportes públicos se encheram novamente e apesar da necessidade de isolamento muito pouco foi feito. Os números estão aí para confirmar e voltarão lá pela metade do mês para mostrar as consequências desse desvario social que estamos vivendo.

Quem foi obrigado a aglomerar para trabalhar se cuidou do jeito que pode, mas quem não se cuidou, quem aglomerou por conta do individualismo vai acabar incrementando o número de contaminados de um jeito irreversível. A mídia começou a discutir porque essa gente ignora os cuidados. Foram levantadas várias razões incluindo a sociedade individualista, o desespero do isolamento e outras coisas. Desespero do isolamento continua dando em quem continua isolado. Desde o início havia uma parcela da população, essa que nega a importância do vírus, que não usa máscara, que aglomera nos bares, que demonstra todo seu reacionarismo anticiência e que se agrega aos 30 % de eleitores fanáticos do Bolsonaro. Mesmo não sendo eleitores pensam do mesmo jeito.

Essa população sempre existiu. Estava isolada por conta de todo um país que se comportava de outra maneira, por conta de um pensamento coletivista que ajudava a criar e a manter políticas públicas. O SUS é resultado disso. Depois que a burguesia insana se juntou e conseguiu impedir esses governos de governar deu no que deu.

Hoje vemos na imprensa o resultado deste quase um ano de pandemia. Os muito ricos ficaram ainda mais ricos. A fortuna dos bilionários cresceu mais de 30% por cento neste período. Os mais pobres ficaram mais pobres e a classe média, como sempre acontece, ficou no meio, de fiel da balança, cada dia mais infiel aos princípios do desenvolvimento social. Quer ser mais do que é e acaba andando pra trás atropelando seus vizinhos e sufocando quem está por baixo. O plano parece ser este. Guedes e seus Chicago Boys pensam assim. Se vestem de liberais a favor do desenvolvimento econômico, mas são na realidade investidores cruéis do mercado. Acham que o dinheiro cada vez maior nos seus bolsos vai fazer sobrar algum, aquelas moedas que caem, para os mais pobres.

Segundo eles, a condição de excelência para quem sabe lidar com a grana, eles mesmos, vai fazer com que todos, de maneira lenta e gradual, também se beneficiem. Não dá para acreditar como não deu para ver nem mesmo essa política ser aplicada. O Brasil é um país que precisa de políticas públicas e a pandemia mostrou isso não só aqui, mas está mostrando no mundo. Os estados estão se manifestando para que a população seja vacinada. Algumas empresas fizeram doações, mas quem está arcando mesmo com as despesas são esses mesmos estados. Aqui no Brasil, apesar da discreta pressão da sociedade o governo hesita. Hesita porque não quer. Melhor para essa política canhestra e cruel que mais gente morra. Os idoso já são 60 % dos que perderam a vida para a Covid. Agora a pandemia pegando os jovens e continua atingindo os mais pobres. Se for pobre, tudo bem, ajuda no equilíbrio das contas como indica a reação do governo. Com a morte dos idosos muita grana do INSS foi economizada e eles acabam nas entrelinhas demonstrando satisfação.

Eu não quero pegar Covid. Vou manter meu isolamento porque tenho condições, mas espero que a pressão da sociedade aumente e o governo seja obrigado, mesmo que a contragosto, a vacinar a população.

É a nossa saída, é claro, sem falar de 2022 que aí, através do voto, poderemos realmente mudar o rumo da prosa. Esses 30 % continuarão apoiando cegamente o governo, mas os outros 30% mais flutuantes, esses sim podem influenciar. Eles estão sentindo na pele o arrependimento de ter permitido que Bolsonaro fosse eleito por “medo “do PT. Que bom. É sempre tempo, mas é importante estar atento e forte porque os números da pandemia estão aumentando e antes que seja tarde demais vamos mudar nosso comportamento nas ruas e nas urnas.

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