A morte sempre foi inaceitável, mas agora é pior: a covid nos tirou o direito de velar. Por Hellen Alves

A pandemia de coronavírus alterou muitos aspectos de nossas vidas e até mesmo a forma como cuidamos e nos despedimos daqueles que amamos.

Quando um ente querido ficava internado, era comum que familiares e amigos se revezassem nas visitas, mas, por conta do alto risco de contágio, aqueles que estão hospitalizados agora ficam isolados. 

Essa situação expõe diversas famílias à angústia de não poder zelar e se despedir adequadamente, pois os velórios e enterros também foram adaptados às normas de segurança mais rígidas em tempos de pandemia.

“Sem dúvida, a coisa mais difícil é a falta de cerimônia. O despedir-se através de algo mais concreto. Parece algo abstrato, que não aconteceu ou que foi apenas um sonho”, afirma o estudante de história Daniel Nascimento, 18 anos, após o falecimento do pai, Damião José, 42 anos, vítima da Covid-19.

Daniel Nascimento com Damião José- Foto: Arquivo Pessoal

Ele conta que sua família estava seguindo as medidas de isolamento social, mas todos ficaram doentes na mesma época – Daniel, o pai, a mãe e dois irmãos. A recomendação até então era procurar ajuda médica apenas em casos graves. “Foi muito rápido, meu pai adoeceu no dia 15 de abril e já no dia 29, veio a óbito”, relata Daniel.

Bruno Kiefer, procurador de Justiça de Maceió, 34 anos, viralizou nas redes sociais ao contar sobre o falecimento do pai, Ronaldo Rocha Lelis.

Perdi meu pai anteontem (21/04) pro #COVID19 . 64 anos, cheio de saúde, sem comorbidades, não tomava nenhum remédio controlado… A dor é de dilacerar o peito. Não pudemos sequer velar o corpo. Cuide dos seus! Não é “só uma gripezinha”! Coronavírus mata! Vai com Deus, pai. Te amo”, escreveu.

Ele também testou positivo para a Covid e suas irmãs apresentaram sintomas da doença. Ronaldo, pai de Bruno, foi internado por precaução após os médicos visualizarem uma mancha no raio-X do pulmão. Nos primeiros dias no hospital estava ‘tudo tranquilo’, mas a situação foi se agravando. “A partir do quinto dia ele acordou muito mal, com muita indisposição, dor no corpo, vômito, cansaço. A partir do 6º dia foi pro semi-intensivo e oxigênio. A partir do 7º dia foi pra UTI e entubado. Ficou 30 dias na UTI e faleceu”, relembra.

Em sua publicação nas redes sociais, Bruno enfatizou a dor de não poder velar o corpo de seu pai e, em entrevista ao DCM, contou que foi uma despedida muito rápida e que o caixão estava lacrado: “Pedimos à funerária para abrir os fundos do carro mortuário para rezarmos e nos despedirmos dele. Durou cerca de 7 a 10 minutos”.

O procurador disse também que se despedir dessa forma foi mais doloroso, já que amigos e parentes não estavam perto, mas que prefere imaginar o pai em lugar bom. “Ele era espirita e muito espiritualizado. Não tinha medo da morte, pois sabia que foi um homem bom e teria um pós-vida legal”, conclui.

Débora Soares, operadora de caixa, 31 anos, deixou seu antigo emprego em um mercado para preservar a saúde da família. Apesar de todos os cuidados, ela, o esposo e a mãe testaram positivo para o novo coronavírus – apenas sua filha de 2 anos não pegou a doença. 

Ao buscar ajuda médica após apresentar perda do paladar, tosse, febre e falta de ar, ela recebeu os diagnósticos de gripe e dengue. Apenas quando os pulmões já estavam comprometidos, foi internada por conta da baixa saturação e identificado que se tratava da Covid.

Francisca Soares da Fonseca, 77 anos, mãe de Débora, também foi ao hospital após apresentar sintomas, mas recebeu o diagnóstico de gripe e foi orientada a seguir com o tratamento em casa. A idosa tinha arritmia e cálculos nos rins.  

“A última vez que eu vi minha mãe foi quando eu recebi alta no dia 11 de maio. Minha irmã implorou para que ela fosse internada”, lembra Débora. Dona Francisca foi colocada em um leito em frente ao da filha e elas conversaram por 25 minutos – sem saber que estavam se despedindo. 

Débora Soares ao lado da mãe Francisca Soares da Fonseca – Foto: Arquivo Pessoal

Débora explica que a mãe foi intubada e que os médicos perguntaram aos familiares se poderiam prescrever cloroquina para Francisca, eles aceitaram, apesar de ficarem apreensivos. O medicamente afetou os rins da idosa, que não sobreviveu à hemodiálise e faleceu no dia 04 de junho. 

“Eu fui a última a receber a notícia do falecimento da minha mãe. Foi muito doloroso para mim, teve onze pessoas no velório da minha mãe numa sala lá em Perus. A gente pode velar ela meia hora só. Foi tudo muito rápido, muito doloroso, não pude ver o enterro dela”, conta Débora. 

Além de lidar com as fortes dores no peito e nas costas, sequelas deixadas pela Covid, ela precisou buscar ajuda psicológica para lidar com a dor do luto e com o agravamento das crises de ansiedade.

A psicóloga Fabia Lima esclarece que o luto precisa ser entendido como um processo que dura mais ou menos um ano e meio, contemplando as reações que uma pessoa tem diante de uma perda – não, necessariamente, relacionada à morte de alguém.

Ela também explica que cada pessoa conceitua a morte de um jeito e que o processo terapêutico ajuda os pacientes a compreenderem a vida como algo finito. “O ser humano ele tem medo de morrer então é muito complicado a gente assimilar a nossa finitude”, diz Fabia.

Além disso, os ritos fúnebres sofreram alterações ao longo do tempo de acordo com a necessidade de cada sociedade – assim como ocorre agora. “Depois que isso tudo passar, mudanças haverão. E vamos ter que esperar um pouco para ver como vamos perceber e conviver com isso no nosso dia a dia. Para reavaliar as práticas dos funerais”, afirma.

Mesmo com as medidas de isolamento e distanciamento social, podemos acolher e dar suporte nos dispondo a ouvir aqueles que sofrem. “Nesse momento de perda, as pessoas precisam ser ouvidas, elas têm coisas que precisam falar e querem falar”, completa a psicóloga especialista em luto.

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