A mulher selvagem, o Carnaval e o fim do bolsonarismo. Por Marques Casara

Além da Mangueira, a escola Grande Rio também mandou seu recado neste Carnaval – Raphael David | Riotur

Publicado originalmente no site Brasil de Fato

POR MARQUES CASARA

Observe três reflexões. A primeira vem do samba-enredo da Mangueira. Retrata Jesus como uma mulher negra, oprimida pela violência de gênero e pelo racismo. “Eu sou da Estação Primeira de Nazaré. Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher”, diz a letra, que mais adiante avisa: “não tem futuro sem partilha. Nem messias de arma na mão”.

A segunda reflexão vem do livro “O Circuito dos Afetos”, de Vladimir Safatle: “O poder fará tudo para que os livros continuem fechados”, diz o autor. Pense nos ataques a Paulo Freire e na censura a livros, Brasil afora.

A terceira reflexão vem do livro “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estés, que pesquisa o arquétipo da mulher selvagem, a mulher não domesticada, a mulher que resiste a ter seu corpo saqueado e mercantilizado. “Por mais que seja proibida, silenciada, podada, enfraquecida, torturada, rotulada de perigosa, louca e de outros depreciativos, a Mulher Selvagem volta à superfície, de tal forma que mesmo a mulher mais tranquila, mais contida, guarda um canto secreto para a Mulher Selvagem”, escreve a autora.

Pense nos ataques à jornalista Patrícia Campos Mello, à deputada Maria do Rosário, à Dilma Rousseff e a tantas outras mulheres que não aceitaram e nunca aceitarão serem tratadas como coisa.

Pense na “deusa-mulher” acorrentada à frente da bateria da Mangueira, rosto negro, sangue índio, corpo de mulher, alma selvagem. Pronta para renascer, tal qual uma fênix negra, selvagem e indomável, a curar as feridas de um país que não nasceu para ser triste.

Pense na arte e nos saberes de um país repleto de conhecimento e que jamais aceitará que os livros voltem a ser fechados. A cultura nos move, mesmo a trancos e barrancos, mas ela nos move. Não permitiremos, como país, a volta aos porões de dor e de sofrimento.

Feminino selvagem

Não há um país sem partilha, sem respeito, sem alteridade. Pode haver em outro lugar. Jamais aqui, nesse Brasil diverso, antropofágico e barroco. É só uma questão de tempo.

Olhe para a afronta de Paulo Guedes às empregadas domésticas. Olhe para a violência sexual de Bolsonaro contra a jornalista Patrícia Campos Mello e todas as outras mulheres.

O bolsonarismo errou feio ao não perceber que a dominação, na atualidade, não se sustenta mais pela violência desmedida. A dominação se dá pelo ajustamento suave, quase indolor, a uma falsa liberdade, regida pelas regras do mercado.

Bolsonaristas não leem Marx e muito menos Foucault. Se o fizessem, saberiam que já está tudo dominado e não precisa se esforçar demais. É só deixar o bonde andar.

O carnaval 2020 deglutiu o bolsonarismo em praça pública. Digeriu e vomitou uma gosma mal cheirosa e com jeito de coisa velha. País afora, o que se viu foi o tom da contestação, do descontentamento. É um caminho sem volta.

Dia 15 está marcada uma manifestação em defesa do bolsonarismo. Nesse dia, se você fechar os olhos ouvirá, ao longe, o canto de um cisne. Ouvirá os estertores de uma ideologia que detonou a si mesma. Se olhar para o céu verás, ao longe, a fênix negra, carregando o próprio ninho em direção ao templo do sol. O momento é de renascer.

Anote e depois me cobre: seremos salvos pela arte, pela cultura e pelo feminino selvagem que habita cada um de nós. “Oxalá mostrou ao próprio Cristo como ele era mulato… Minha fé minha cultura”, nos ensina Marcelo Yuka.

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