A noite em que o fascismo mostrou as unhas. Por Moisés Mendes

Atualizado em 21 de maio de 2026 às 19:53
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A jornalista e ex-deputada federal Manuela d’Ávila. Foto: Guilia Cassol/Suil21

Aconteceu há 11 anos, em 20 de maio de 2015. A então deputada estadual Manuela D’Ávila reuniu um grupo de jornalistas para debater a disseminação de ódio na internet. Sim, lembrem-se de que em 2015 o ódio já se alastrava, mesmo que ainda não houvesse bolsonarismo organizado.

Manuela convidou Juremir Machado da Silva, Luciano Potter e o editor desse blog. Eu trabalhava no jornal Zero Hora. Também estavam no plenarinho da Assembleia, em Porto Alegre, o chefe de gabinete da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, Roberto Nascimento, e o deputado Jorge Pozzobom (PSDB), que depois seria prefeito de Santa Maria.

Naquele tempo, Manuela já era atacada. Dilma era massacrada. Tínhamos ali o começo do que viria a ser a fúria do ativismo fascista desses tempos inesgotáveis.

Um grupo de homens jovens no fundo do plenário lotado reclamou que não estava representado na mesa. A extrema direita estava ali, com que objetivo?

Um sujeito com boné do MST foi até a frente e contestou. Falou em democracia e atacou “os reaças”, discursando em pé. O grupo respondeu. E o homem de boné e o grupo de direita passaram a bater boca.

Os caras conseguiram esculhambar com o debate, logo depois de iniciado. Manuela percebeu que algo grave poderia acontecer, suspendeu o evento e todo mundo foi embora. Alguma coisa estava errada.

No elevador, eu, Juremir, meu amigo Heitor Schmidt e mais duas pessoas nos sentimos na jaula com um dos sujeitos. Sozinho, ele me atacou, gritando: meu cachorro mija e caga no que tu escreve na Zero.

Não levei muito a sério e perguntei: e mija e caga também nos textos do Juremir? O sujeito respondeu: não, só caga nos teus.

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Foto: Reprodução/Fábio Teixeira

O homem continuou me atacando aos berros, até o elevador chegar ao térreo. Não sei quem era, nunca mais vi e conto o que aconteceu porque me parece que tem algum sentido histórico, pelo contexto e pelo que viria depois.

No dia seguinte, ficamos sabendo que o sujeito com o boné do MST era da mesma turma de extrema direita que estava no fundo do plenário. O que eles haviam feito era um teatro manjado.

Lá naquele 20 de maio de 2015 já latejava o fascismo com a cara que tem hoje, ainda meio amador e desajeitado, que se rearticula agora depois do golpe fracassado. Naquela noite, a extrema direita avisou: nós estamos mais preparados do que vocês para criar situações como essa.

Começavam a fazer o que a esquerda fez, com outras intenções, durante a ditadura: passou a assustar no grito, pela imposição de figuras que, já naquele 2015, não temiam mais o PT e todas as esquerdas. E o PT era poder.

Eles se articularam e foram à Assembleia para esculhambar com um evento sobre ódio. Alguém deve ter ganho uma aposta. Eram menos de 10. Conseguiram.

Faz 11 anos hoje. Os pitbulls deles já não mijam e cagam mais no que a gente escreve porque estariam cagando no celular e no computador dos fascistas.

Eles continuam por aí nos grupos de tios do zap e nas redes sociais. Turbas como aquela estão mais violentas, mais ameaçadoras e ainda impunes.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/