A palavra do ano em 2025 foi ‘agnotologia’! Por Lenio Streck

Atualizado em 1 de janeiro de 2026 às 11:50
Compartilhamento de notícias. Foto: ilustração

Peguei no computador para escrever esta coluna e a TV estava ligada no Jornal do Almoço. A matéria que estava passando no ecrã era sobre o réveillon. A repórter estava no supermercado. E entrevistou, de forma “genial”, um dos fregueses: “ — e aí? O que veio fazer no supermercado?”. Fiquei pensando: a agnotologia venceu!

Bom, isso me deu o mote para a coluna. Leiam e entenderão. Eis.

Hoje já é 2026. Muita coisa aconteceu no ano passado. Difícil selecionar. O ano de 2025 pode ter sido o ano em que a advocacia mais sofreu em suas prerrogativas. Foi o ano em que perdemos – praticamente – o direito de sustentar oralmente nossas teses nos tribunais.

Com tudo o que vimos, foi a soma de todos os nossos medos. Afinal, vivemos um ECG – Estado de Coisas Golpista, uma vez que ao levantarmos pela manhã, há um novo terremoto. Existente ou não, o que vale é a guerra de e por (novas) narrativas.

2025 também foi o ano em que a terceirização da cognição atingiu o seu apogeu (até agora). Agentes públicos bem pagos para decidir os rumos dos direitos dos cidadãos deixam tudo para as máquinas – até mesmo a confecção de simples relatórios ou ementas de acórdãos. No fundo, a IA representa o império da razão cínica (todo mundo sabe o problema que isso representa, mas todos continuar a fazer – aqui uso Sloterdijk, quem tenta fazer uma crítica da razão cínica, invertendo a famosa frase de Marx (eles não sabem o que fazem e fazem assim mesmo), que passa a ser “eles sabem o que fazem e continuam a fazer).

O final de 2025 trouxe à tona o caso Master e o seu “alrededor”, que provoca uma guerra de versões e coloca em pânico os Poderes da República. Qual será o desfecho? O novo ano promete.

O ano de 2025 também ficará marcado na história do Brasil, porque pela primeira vez os que tentaram um golpe de Estado foram severamente punidos, o que, infelizmente, em vez da acalmar os ânimos, acirrou-os, com tentativas de virada de jogo com anistia tipo 4.0 e 1.0. Os militares ainda não têm data para o julgamento da perda de patentes. O inusitado é que corremos o risco de alguém, condenado a mais de 20 anos em regime fechado por tentar golpe de Estado, continuar com sua patente. A ver. Mas não em 2026.

Sempre se elege uma palavra do ano. Para mim, é agnotologia, que introduzi (ao menos no Direito) a partir de cientistas norte-americanos em coluna aqui na ConJur. Trata-se da construção deliberada da ignorância. A ignorância é uma “ciência”. Pode ser “ensinada”. Com a agnotologia ocorreu a ascensão da “zérruelagem”, isto é, qualquer Zé Ruela, o fundão da classe, assume protagonismo nos diversos campos do (des)conhecimento.

Compartilhamento de fake news. Foto: ilustração

Nesse Zeitgeist, em que ocorre essa proliferação de simplismos, platitudes e truísmos comunicativos, as redes sociais tomam conta de corações e mentes. Tudo é instantâneo e tiktokeado. Textos de mais de dez linhas são ignorados. Aliás, o CNJ voltou à carga com a simplificação, seguido até por uma lei sancionada pelo governo, sem esquecer a já famosa instrução normativa PGF/AGU nº 88, da Procuradoria Geral Federal, que proíbe até mesmo que se use a palavra “meia-tigela” (fico pensando, então, o que a PGF pensa sobre o termo zérruelagem).

Na TV cresceu o apelo à isomorfia, isto é, o repórter tem de estar no meio da “coisa”. Querem colar palavra e coisa… para poder dispensar a própria palavra (imitando o que Swift ironizou quando da visita de Gulliver à Academia de Lagado). A agnotologia parece, mesmo, eficaz em sua metodologia. Será que ensinam os repórteres essa “ciência” pela qual, para falar do aumento da gasolina, deve ser entrevistado um pipoqueiro? Registro que, antes que alguém fale, minha crítica é anterior às blagues de Adnet na TV. Bem antes dele, mas bem antes mesmo – seguramente há mais de vinte anos – venho brincando com o “modelo” de fazer reportagem de TV. Isso é antigo. Já era assim nos anos 80, quando escrevi sobre as “isomorfias”. E dizia eu em um texto de 1991: “hoje em dia, o repórter para falar de uma enchente tem de estar com a água pelo pescoço”.

Nessa linha agnotológica, em 2026, logo após a virada do ano, veremos que o primeiro bebê do ano aparecerá nos braços do ou da repórter vestida(o) de enfermeiro(a).  O tempo passa. Os repórteres se aperfeiçoaram. Mas não alteraram o modus operandi. Adnet mostra o que os repórteres fazem: acham que o telespectador é um néscio, uma toupeira que não sabe o que é metáfora. É muito boa a sátira do Adnet. Sim, o “modelo” de reportagem se propõe a fazer uma coisa que ninguém da linguística julgaria proveitoso: explicar uma metáfora ou uma alegoria. Em 2025 isso foi recorrente. E o será no novo ano.

Vimos, em 2025, matéria sobre mensalidades escolares: o repórter fala, com pausas, da frente do colégio. Depois está na sala de uma família, com um carnê na mão. E “explica” o que quis noticiar. Bingo. O mundo munda. Mas não “raimunda”.

Nunca esquecerei a filósofa do Fantástico explicando a Alegoria da Caverna…de dentro de uma caverna! E como esquecer o programa em que ela explicou Heráclito, o filósofo do movimento…em cima de um caminhão…em movimento.

Em 2025 – e isso terá continuidade nos próximos anos – veremos que isso tudo piorará, agora “tocado” pelo Midas da Inteligência Artificial. Tudo é “compreendido” por memes. E memes que explicam memes. Resumos de resumos.

De todo modo, não me leiam ao pé da letra (repórter aparecerá pegando no pé de uma enorme letra…). No direito temos um problema de aplicação: não dá para mostrar a enfiteuse como uma senhora acima do peso e nem o litisconsorte ativo como um janota…, mas dá para mostrar o juiz adicto por IA (talvez com um robô usando toga).

Em 2026 teremos o que já tínhamos até agora: você paga TV a cabo e tem mais comerciais que a TV aberta. Uma autêntica picaretagem com canais de aproveitadores de todos os tipos que capitaneiam programas de viagens para comer de graça, pescadores que passam o dia pescando e atirando os peixes de volta depois de rebentar as suas bochechas (a dos peixes), realities ridículos de pelados que arfam comendo larvas e explicando para o telespectador in off o gosto da larva e da cascavel, programas de culinária à “beira do fogo”, vendedores de quinquilharias, pastores, presbíteros, missionários pedindo PIX e prometendo prosperidade e curas de câncer e Covid, padres com cabelo com gel vendendo joias e remédios contra reumatismo, concursos de culinária, doceterias e quejandices, programas de notícias que (se) repetem ad nauseam com opiniões repletas de truísmos e platitudes (quando não ultra reacionárias como a Jovem Pan). Sem falar nos programas de esportes com “especialistas” de todos os matizes e expertises, que passam horas falando obviedades. E o que dizer do VAR, que funciona como uma ejaculação interrompida? A humanidade fracassou, porque nem enxergando em câmara lenta conseguem “ver” pênaltis contra determinado time…! E anulam, pateticamente, gols feitos, literalmente, um centímetro à frente, sob o argumento de off side (argh – o estagiário, que está perdendo o emprego para os robôs, levanta a placa com os dizeres: ele está usando uma onomatopeia).

Tenho de terminar o texto. Para que isso não vire um moto contínuo. Aliás, fosse TV (a cabo ou aberta), o (a) repórter mostraria… bah. Essa é difícil. Como se “isomorfiza” o moto contínuo? Deixa pra lá. Repórter mostra um contínuo de moto. É quase a mesma coisa!

Agnotologia. A palavra do ano.

Feliz 2026!