A paz e a sonolência do primeiro protesto em SP sem o MPL

O Dia do Basta reuniu 30 mil pessoas passeando com o apoio da PM.

Sábado à tarde
Sábado à tarde (Foto de Mauro Donato)

O primeiro ato pós MPL teve um perfil radicalmente diverso das manifestações anteriores. O clima estava mais para passeata. Eram poucos os grupos com solicitações diferentes do assunto principal (o veto à PEC37, a proposta de emenda constitucional que inibe o poder de investigação do Ministério Público). Um ou outro cartaz pelo fim da violência contra animais e alguns médicos indignados com o pronunciamento da presidente Dilma. Muitas famílias com crianças. É visível que para grande parte tratava-se da primeira participação.

Encabeçado pelo movimento Dia do Basta, obteve mais de 200 mil adesões em sua página do Facebook. Pergunto a Alexandre Duarte, 26 anos, um dos organizadores, quantas pessoas ele prevê. “Umas 50 ou 60 mil” (foram 30 mil, segundo a PM). O MPL está ajudando? “Não!”, responde ríspido. Algum plano para conter vandalismo? “… não…” E se partidos aparecerem? Vejo bandeiras de sindicatos no vão livre do MASP. “Não sei, mas contamos com o apoio da PM”. Nenhum partido apareceu.

Acompanhando a deputada federal Mara Gabrilli (PSDB-SP), o promotor público Wilson Tafner, coordenador do núcleo de comunicação social da Procuradoria Geral de Justiça de SP é dos mais empolgados. Acredita que a chance de sucesso é enorme devido ao desenrolar dos últimos dias.

Um grupo de socorristas voluntários também faz sua estréia. É o GAPP (Grupo de Apoio Popular aos Protestos). Distribuem água, máscaras e adesivos. Alexandre Morgado acredita que não estejam chegando tarde na história. Diz estar confiante de que os protestos ainda se farão presentes por muito tempo e notou a ausência dessa preocupação com a segurança nas manifestações anteriores.

O repórter da Globo César Galvão está com o semblante fechado. Pergunto se acredita que hoje será mais fácil realizar seu trabalho. “Sim, bem mais.” Ainda assim, ele mantém o microfone sem identificação e camuflado pelo paletó. A dobradinha com o cinegrafista não é ostensiva. Deixam para se unir apenas no momento de entrevistas.

Outro organizador do Dia do Basta, Jody Oliveira Cabral, 23 anos, está perplexo e perdido. Com o megafone, puxa alguns gritos de guerra. A última manifestação organizada pelo grupo foi em 7 de setembro de 2012. Quantas pessoas havia? “Menos de duas mil” diz ele. Como juntaram tanta gente agora? “Os grupos estavam soltos, hoje se unem.” O MPL foi importante então? “Sim, muito. Deixou isso de bom”.

Já estamos muito atrasados em relação ao horário anunciado para o início (estava marcado para as 15:00, já são 16:15). O que estão esperando? “Faltam três grupos chegarem”, ele responde. Quem são? “O Anonymous, o Acorda Brasil e…” esqueceu o outro.

Após quase uma dezena de interrupções na liberação da manifestação fazendo o início da caminhada se assemelhar a um carro com problemas, partimos.

Em frente ao Center3 uma banda de rock não se dá ao trabalho de interromper sua apresentação feita na calçada. Recolheu apenas a caixinha de coleta que possuia poucas moedas.

Descendo a Consolação, o trânsito não conta com bloqueios. Os próprios manifestantes organizam a passagem dos carros obedecendo o semáforo. O clima é de grande tranquilidade. Muitos começam a voltar prevendo não aguentar a caminhada toda. Estão acostumados a só andar de carro.

O comércio, em oposição aos dias anteriores, está aberto e faturando alto com a venda de cervejas. O jogo Brasil e Itália também provoca algumas pausas em frente a bares.

No meio da Consolação, na janela de um prédio invadido, um morador faz pronunciamentos pela janela: “Aqui é resistência”, grita. É vaiado. O pico do Everest daquela passeata é em frente ao Ministério Público. Ali todos param e cantam o hino nacional. Seguem-se as palavras de ordem: “Não é pra adiar, é pra rejeitar”.

O promotor de justiça Arthur Migliari, candidato a prefeito de Atibaia em 2012, torna-se o centro das atenções. Concede entrevistas em que mostra exaltação ao dizer: “Estou aqui pelo Brasil!” e posa para fotos durante um tempo superior ao que os organizadores consideram tolerável. Vários gritos de “sai mídia” começam.

A mais pacífica das manifestações chega ao fim. A impressão, porém, é que os ânimos começam a esfriar e o poder de fogo também. Penso no camarada invasor na rua da Consolação. “Aqui é resistência”, ele disse. Sem a garotada do MPL, aqui é sonolência.

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masp

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