A bizarra homenagem às negras na Fashion Week

O estilista Ronaldo Fraga virou manchete, mas pelas razões erradas.

Estranha homenagem
Estranha homenagem

O texto abaixo, de autoria de Haroldo Ceravolo Sereza,  foi publicado, originalmente, no site da revista Samuel.

Lamartine Babo escreveu um samba que cantamos todos os anos no Carnaval. “O teu cabelo não nega, mulata,/ Porque és mulata na cor,/ Mas como a cor não pega, mulata,/ Mulata eu quero o teu amor.”

É um samba dúbio, do ponto de vista racial. Dá para lê-lo de duas maneiras: na positiva, ele quer o amor da mulata porque não pode ter a cor dela – o que faz da letra uma prova de admiração; na negativa, ele quer o amor dela apenas porque não corre o “risco” de pegar a cor.

Lamartine faz uma ode à mulher que está, literalmente, cantando. Ela é invejada pela Lua (“A Lua te invejando faz careta,/ Porque, mulata tu não és deste planeta”), que representa o branco, como sabemos também por outra letra, a de Banho de Lua: “Tome um banho de Lua/ Fique branca como a neve”. Mas a Lua, inspiração do amor, dos poetas, se opõe à mulata, realidade, objeto de desejo sexual, e novamente a classificação racial exprime seu preconceito.

Fraga
Fraga

(Num post desses, nunca é demais lembrar que a própria palavra “mulata” está carregada de preconceito racial. Ela remete a mula, à ideia de degeneração racial decorrente de miscigenação; considerando esses fatores, a música de Lamartine é a expressão de uma dos mais machistas e racistas ditos populares brasileiros, registrado por Gilberto Freyre em Casa-grande & Senzala:“Branca para casar, mulata para foder, negra para trabalhar”.)

Outra marchinha de Carnaval pergunta, de maneira menos dúbia: “Nega do cabelo duro/ qual é o pente que te penteia?”. Esses dois versos têm conotação negativa, porque parecem responder, com uma interrogação provocativa, a outra pergunta: que pente é duro o suficiente para pentear um cabelo tão duro?

O uso desses dois versos (o último repetido mais duas vezes num refrão de quatro versos e pouca imaginação) na reprodução do racismo cotidiano, especialmente entre as crianças, é tão frequente e tão forte que esconde o pouco que resta da letra da marchinha ninguém conhece. Se cantássemos a segunda estrofe dessa marchinha, talvez pudéssemos ser um pouco mais condescendentes com ela: “Quando tu entras na roda,/ O teu cabelo serpenteia,/ O teu cabelo está na moda,/ Qual é o pente que te penteia?”

O cabelo que não nega está na moda hoje. Ronaldo Fraga quis fazer uma homenagem a ele colocando as modelos para desfilar com perucas de palha de aço. A homenagem, corretamente, foi entendida por militantes do movimento negro como mais uma manifestação de racismo. Afinal, qual é o pente que penteia a palha de aço?

Quantas meninas e meninos não foram ridiculizados por conta do “cabelo Bombril”? (Palha de aço que pode também ser associada à ideia de que o espaço da mulher negra é a cozinha, na condição de trabalhadora doméstica – preferencialmente, sem direitos trabalhistas.)

Provavelmente Fraga não acha que foi racista. Como o rapaz que participou de um trote na faculdade de Direito da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) também pensa que não é racista porque tem amigos negros e porque, afinal de contas, um “macacão” é o símbolo da Atlética.

Num país em que meninas negras são espancadas por desceram no ponto de ônibus de uma vizinhança supostamente branca, versos bem simples talvez sejam eficientes para explicar a violência de um discurso racial supostamente “amigo”:

Ontem na escola

Miriam num rompante
Disse para Cora
Sutil como um elefante

Vou uma dica te dar

Dela nunca se esqueça
Melhor você usar
Uma fita na cabeça

Seu cabelo é cheio

E muito enrolado
Por isso ele fica feio
Sempre bem desarrumado.

Miriam continua, sugere que a Cora alise o cabelo e se justifica:

Digo isso pois você

É minha amiguinha
Seu cabelo é ruim
Mas você é boazinha.

Cora fica arrasada com os comentários de Miriam, mas, conversando com sua tia, descobre uma verdade e explica a sua colega:

Que cabelo não se nega

Nem debaixo de água fria

E que melhor que a fita

Que vende no armarinho
É cabeleira solta e bonita
Adornada com carinho.

Se quiser conhecer a história completa, Ronaldo Fraga deve ler O cabelo de Cora, de Ana Zarco Câmara, publicado pela editora Pallas.

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