A pirotecnia desnecessária na escolta do Lula foi mais uma demonstração de injustiça. Por Joaquim de Carvalho

O policial federal com o escudo da S.W.A.T. de Miami

O aparato de segurança montado para transportar Lula até São Bernardo do Campo chamou a atenção pelo número de policiais, o armamento pesado e a vestimenta de alguns policiais. Pelo menos um deles utilizava colete com emblema da S.W.A.T. de Miami.

Eram agentes da Polícia Federal brasileira, como se notava por outro escudo, o da G.P.I, Grupo de Pronta Intervenção, setor da PF especializado em abordagens de criminosos considerados perigosos.

Ao que tudo indica, a S.W.A.T entrou no colete como recordação de algum curso que o policial brasileiro fez com os agentes de segurança dos Estados Unidos.

Cursos desse tipo são comuns, e os policiais brasileiros os exibem como medalhas.

A PF no Brasil tem uma relação muito próxima com as forças de segurança nos Estados Unidos.

Policiais que fizeram a escolta de Lula precisavam se comportar de maneira tão ostensiva?

Lula já deu prova de que decidiu seguir estritamente as regras do Judiciário e da Polícia Federal desde que a perseguição a ele se tornou nítida.

Depois da condenação pelo caso do triplex, foi aconselhado por algumas pessoas próximas a deixar o Brasil, já que, segundo a avaliação destes, reverter a sentença de Moro no TRF-4 seria muito difícil, impossível mesmo, dada a indicação de cartelização e blindagem do então juiz de Curitiba.

Se não quisesse sair do país, a alternativa apresentada por esses conselheiros é que procurasse uma embaixada em Brasília e se refugiasse ali, como fez em Londres Julian Assange, do Wikileaks.

Por sinal, Lula e Julian Assange têm o mesmo advogado, Geoffrey Robertson. Este defende Lula no Comitê de Direitos Humanos da ONU.

Lula também preferiu se apresentar à Polícia Federal no dia 7 de abril do ano passado, quando foi preso. Ele se encontrava no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, e os militantes fecharam as saídas para que ele não se entregasse.

Alguns conselheiros diziam a Lula que ele deveria permanecer ali, à espera de uma ação policial. “Se querem te  prender, que venham te buscar”, teria dito um deles.

Lula considerou que colocaria em risco outras pessoas e também avaliou que, se dificultasse as coisas, teria menos chance de deixar a prisão num curto espaço de tempo.

O ex-presidente decidiu que era preciso honrar o acordo que alguns emissários — entre eles, Sigmaringa Seixas — haviam feito com o então ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann: se apresentar no dia seguinte ao da chegada ao sindicato.

Na hora marcada, Lula procurou uma saída alternativa do prédio e, contra a vontade de apoiadores, deixou o sindicato e se apresentou aos policiais, no local combinado.

De lá, foi levado para o aeroporto de Congonhas e, dali, para a Superintendência da PF em Curitiba, de onde não saiu mais, exceto para um depoimento à Justiça e hoje para o velório.

O ex-presidente é, portanto, um homem disciplinado, e a PF sabe disso.

E poderia ter levado em conta essa traço do caráter de Lula antes de montar um esquema de segurança que não existiu em casos em que o escoltado é conhecido pela periculosidade.

É preciso registrar que quem tem contato direto com Lula na carceragem da PF mantém com ele uma relação de cordialidade. Os policiais o tratam por presidente, senhor e, mais de uma vez, mostraram a visitantes a placa do prédio da Superintendência que tem o nome dele como presidente responsável pela obra.

Mas hoje, diante das câmeras e, principalmente, do olhar atento da juíza Carolina Lebbos, a jovem responsável pela execução penal de Lula, eles mostraram um comportamento diferente.

O ex-prefeito Fernando Haddad, que estava no funeral, contou através do Twitter que um policial disse a Lula que ele não poderia ter acenado à multidão.

Que perigo há nesse gesto?

Lula, ainda assim, driblou o policial, se colocando no estribo da viatura, e acenou uma vez mais, por dois segundos, a quem estava ali, para chorar com ele a morte do pequeno Arthur.

“O senhor sabe que eu tinha que fazer isso”, teria dito ele ao policial, segundo o relato de Haddad.

Lula terminou o seu mandato como o presidente mais popular da história — 87% de ótimo e bom –, e na chefia do Executivo respeitou e valorizou as instituições brasileiras como talvez nenhum presidente antes dele, inclusive a PF, e o Judiciário de Carolina Lebbos.

Pela Constituição, não poderia estar preso, mas, uma vez que está lá, poderia ter sido tratado pelo que ele é: um dignitário, pessoa civilizada, que, se algum perigo oferece, é apenas àqueles que têm ferido a democracia brasileira.

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