“A polícia dizia que a culpa era minha de apanhar”: a pancadaria no MPL vista por dentro. Por Mauro Donato

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Quando os estudantes secundaristas promoveram as ocupações contra o fechamento das escolas e a polícia esteve muito próxima de agredi-los no atacado (algumas vezes agrediu no varejo), a população se revoltou.

Agora os secundaristas estão todos – sim, todos aqueles mesmos rostos – em apoio aos protestos contra o aumento da tarifa dos transportes e a PM está batendo neles. Parte da população agora aplaude ou se omite frente a essas agressões. Por quê?

Isso vem ocorrendo desde o primeiro protesto deste ano, mas na última quinta-feira (dia 14) o couro de muitos deles ficou marcado e até sangue correu.

G. tem 18 anos e é estudante do segundo ano do ensino médio. Atuante nas ocupações escolares, esteve presente na dupla manifestação de quinta-feira. Enquanto muitos dos secundaristas estiveram na marcha que saiu do Largo da Batata em Pinheiros, G. acompanhou o grupo que se concentrou inicialmente em frente ao Teatro Municipal no centro de São Paulo.

Os dois atos transcorreram sem problemas até a dispersão em diferentes estações de metrô. Na estação Consolação, G. foi jogado por cima das catracas e levou dois golpes de cassetete na cabeça. Um deles provocou um corte que demandou seis pontos.

“Tive que sair pela abertura feita pelos manifestantes pois o metrô fechou as portas e a PM jogou uma bomba de gás lá dentro. Eu estava sangrando muito e meus amigos não conseguiam estancar. Uma amiga pediu ajuda para os policiais, mas debocharam e disseram que era problema meu, que a culpa era minha por estar lá, que eu merecia. Depois de muito tempo esperando a ambulância – que não veio – consegui uma carona de uma senhora até o hospital”, declarou ele ao DCM.

Também em Pinheiros a coisa não terminou bem. Ainda que na estação Butantã (onde finalizou o ato) o catracaço tenha sido consentido pelos seguranças, alguns estudantes foram perseguidos após chegarem a seu destino.

“Eu e alguns amigos descemos na estação Faria Lima e vimos vários policiais com os cassetetes na mão vindo em nossa direção. Eles começaram a dar cacetadas em nossas costas e nos mandaram correr. Entramos no bar mais próximo e eles correndo atrás sem parar de usar o cassetete contra nós. Eu e uma amiga nos trancamos no banheiro feminino (…) Encontramos depois outros companheiros mais para frente, alguns bem machucados. O fim do trajeto até a minha casa foi de bastante pânico pois várias viaturas continuaram passando. A repressão policial se deu tão violenta por conta da ausência de mídia no local, o que não ocorreu durante a manifestação que foi toda acompanhada por imprensa”, disse uma estudante secundarista de 17 anos.

Por motivos óbvios nenhum dos estudantes quer se identificar. Afinal, não é coincidência que estejam apanhando agora. Muitos ficaram visados e, se na ocasião das ocupações a polícia não tinha a opinião pública a seu favor, agora conta com o apoio de uma parcela bipolar da sociedade. Por isso as perseguições inclusive no caminho de casa (algo que endossa as denúncias feitas por estudantes à época das ocupações de que diretores estariam fornecendo os dados de alunos ocupantes – e de pais apoiadores – para a polícia. Como ela sabia de seus destinos?)

Por que essa incoerência? Por que a mesma pessoa não merece apanhar por uma causa mas por outra sim? Eu pensava que vivíamos em um ambiente democrático no qual existisse o direito de se protestar pelo que quer que seja sem ser agredido.

Ou seja, a opinião pública não é avessa à violência contra a pessoa humana. Só é em determinadas pautas, mas em outras não. Apoiam, inclusive.

Ademais, por princípio democrático, é legítima a luta pela redução da tarifa de transporte. Houve um aumento das passagens e pessoas estão contra este aumento. Simples assim. “Mas por que agora?” Seria porque o aumento foi divulgado agora?

Foi agora porque é em janeiro que normalmente saem esses reajustes (mais um motivo pelo qual junho de 2013 foi atípico). Em 2010, os protestos foram tão intensos quanto  esses, mas o prefeito era Gilberto Kassab. Aliás, protestos contra o aumento de passagens são comuns em São Paulo desde o século 19, mas a partir da entrada do MPL por aqui o foco passou a ser sempre ‘os interesses escusos’ do movimento social e não o aumento propriamente dito.

É de estarrecer que algumas pessoas andem dizendo que tudo isso é armado, que a violência faz parte de um plano para “ampliar” as futuras manifestações pró impeachment de Dilma. Um argumento tão infame que se equipararia ao absurdo de dizer que os negros também combinem com a polícia para apanhar e assim fazerem-se de vítimas para obter cotas na faculdade. Ouço essa cretinice faz tempo. Há alguns anos sofri um corredor polonês da polícia e a reação foi: “Conseguiu o que queria, né?”. Atribuiram-me a intenção de apanhar propositalmente.

Essa história de achar que bater nos outros é normal é um grave sinal de sociedade intolerante com a diversidade de pensamento. Uma mistura de intolerância com hipocrisia. Assim como foi hipócrita a grande mídia em 2013 (enquanto eram os outros que apanhavam ela criticava ‘os vândalos’. Quando alguns dos seus se feriram ela mudou de opinião. “Nos outros tudo bem, nos nossos não!”).

Da mesma maneira estão sendo hipócritas os que enalteceram os secundaristas que estiveram combatendo o governador Geraldo Alckmin, mas agora se omitem ou mesmo aplaudem as borrachadas por considerarem uma ameaça à reeleição de Fernando Haddad.

É pedir demais que ninguém apanhe?

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