A polilaminina tem ‘formato de cruz’? Entenda a origem dessa mentira

Atualizado em 28 de fevereiro de 2026 às 9:21
Tatiana Sampaio e a polilaminina “em formato de cruz”

POR MARCOS CESAR DANHONI NEVES, professor titular do departamento de Física da Universidade Estadual de Maringá, Secretário Regional da SBPC-PR (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência)

O universo não foi feito à medida do ser humano, mas tampouco lhe é adverso: é-lhe indiferente
(Carl Sagan)

A questão da representação em uma imagem é fascinante porque nos obriga a pensar sobre a diferença entre o objeto real e sua mediação simbólica. O exemplo de René Magritte — “Ceci n’est pas une pipe” (“Isso não é um cachimbo”) — é emblemático: o que vemos é a figura de um cachimbo, mas não podemos fumar aquele cachimbo, segurá-lo ou utilizá-lo. Ele não é o objeto, mas a sua representação.

Umberto Eco, em seus estudos sobre semiótica, reforça essa ideia ao afirmar que toda imagem é um signo: ela remete a algo, mas nunca é esse algo. A pintura, a fotografia ou qualquer forma de representação visual funciona como um sistema de signos que nos conduz ao objeto ausente. Eco chega a dizer que a imagem é uma “máquina de significar”, pois não apenas mostra, mas também sugere, evoca e até manipula sentidos.

Dessa forma, quando olhamos para uma pintura de um cachimbo ou para uma fotografia de uma pessoa, estamos diante de uma construção simbólica. O que está ali não é o objeto em si, mas um código visual que nos permite reconhecê-lo. Essa distância entre o real e o representado abre espaço para interpretações, ambiguidades e até ironias — como no caso de Magritte, que nos lembra que o signo nunca se confunde com a coisa.

A questão agora, em se tratando dos estudos da Profa. Dra. Tatiana Sampaio, é uma frase magrittiana: “Ceci n’es pas une Croix”, isto não é uma cruz, porque ela, a cruz, está sendo invocada como o formato da polilaminina como a “Proteína de Deus”.

A direita extrema no Brasil, que sempre teve um plano perverso de destruição da ciência, da educação, da cultura, e nunca apoiou as universidades e os institutos públicos do país, começou a se apropriar do tratamento ainda experimental da polilaminina, elogiando a pesquisadora, mas esquecendo o que fez no passado logo após o golpe de Temer em 2016 e o golpe das eleições (com Lula preso) de 2018 (além da questão das vacinas durante a pandemia), e usando uma simbologia religiosa para, em primeiro lugar, tirar uma descoberta promissora (mas que necessita, ainda, de muitas fases de pesquisa e testes em seres humanos) do território da ciência, para inseri-la no mundo mágico da religiosidade (“foi Deus que inventou”).

A representação nos aproxima do objeto ao mesmo tempo em que nos lembra da sua ausência. E é justamente nesse espaço entre presença e ausência que a arte e a semiótica encontram sua força. No caso presente, a força poderosa da ignorância sobre o conhecimento, ligando uma estrutura, a proteína, a um objeto divinizado, a cruz.

O nonsense é grande, mas sempre existiu na história de várias conquistas e descobertas científicas. Exemplos: o bóson de Higgs, descoberto em um acelerador de partículas, cuja descoberta deu consistência a teorias sobre a origem da massa no Universo. Um cientista chamava esse bóson de “A Partícula Maldita” (em inglês, “The Goddam Particle”) porque era difícil de ser descoberta.

Um livro que o cientista escreveu contando a história dessa descoberta teve o título “A Partícula Maldita” alterado pelo editor para “A Partícula de Deus” (“The God Particle”). O nome tornou-se popular porque era quase a explicação divina para a origem de todas as coisas materiais no Universo. Ou seja, uma bobagem, mas uma bobagem que se tornou muito popular e também sem sentido científico real, transformada numa história entre tantas de mistérios ligados a divindades.

O mesmo se dá com os “Pilares da Criação”, nome dado para uma nebulosa; o criacionismo bíblico identificado como Big Bang (origem do universo em modelos de universo expansivo) etc. Devemos lembrar, por exemplo, como estão arraigadas na humanidade as visões de imagens de Jesus e da Virgem Maria em lugares muito inusitados: bolachas, hambúrgueres, janelas de edifícios e de aviões e até em “bumbum de cachorro”.

Este que vos escreve, físico de formação, já foi chamado pela assessoria de uma prefeitura de uma pequena cidade para explicar por que muitas pessoas estavam vendo a imagem da Virgem Maria ao olharem para o sol. Instruí a assessoria a fazer uma campanha de esclarecimento à população para evitarem esta prática, pois quem o fizesse não estaria vendo a Virgem, mas a desintegração da própria retina. Muitos ficaram cegos ou parcialmente cegos por acreditarem que viam a Virgem numa representação dolorosa e sem volta do caminho da cegueira voluntária.

Em todos os artigos sobre lamininas e polilamininas, as representações dessas estruturas proteicas são as mais variadas: em forma de laços, de algemas, de retículos quadrados etc. Mesmo quando agrupadas, as lamininas podem até não ter forma alguma, pois talvez tenham estrutura fractalizada (https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0109388), formando figuras similares a um brócolis.

As diversas representações das polilamininas: onde estão as cruzes?

Espantado o elemento místico-mágico-mistérico de representações cristãs, podemos nos dedicar ao que realmente interessa: a polilaminina pode ajudar na recuperação de medulas danificadas? Vamos começar pela pesquisadora, Profa. Dra. Tatiana Lobo Coelho de Sampaio.

Tem um currículo Lattes ligeiramente desatualizado (“certificado pela autora em 09/09/2025”, conforme consta em seu CV: http://lattes.cnpq.br/2832146111472321). Professora Associada do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ desde 1995. É Doutora pela UFRJ e tem dois estágios de pós-doutoramento, um nos EUA e outro na Alemanha, como bolsista. É sócia e consultora científica da Cellen, empresa de produção de células-tronco para uso veterinário.

Suas pesquisas sobre as polilamininas, segundo manifestações públicas da Dra. Sampaio, perfazem quase duas décadas. No entanto, uma droga derivada de seus estudos precisa passar ainda por todos os procedimentos definidos pelo CEP – Comitê de Ética em Pesquisa — para avaliar a eficácia da droga, sua toxicidade, seus efeitos adversos, comparações com placebos etc. E tudo isso ainda está somente no início.

A pesquisa é séria, a pesquisadora idem, mas não vamos substituir a ciência por expectativas exageradas e açodadas por crenças religiosas. Aliás, quando ciência e religião se confundem, muita gente morre. Vejam os casos do linchamento da sábia grega Hipácia de Alexandria, da tortura e execução de Giordano Bruno, da prisão de Tommaso Campanella, da prisão de Galileo Galilei, das ameaças contra René Descartes.

Em suma, não veja o que não existe e não deixe de ver as muitas oportunidades oferecidas pela ciência quando ela é fomentada e impulsionada por recursos públicos.