A política transfigurada em educação e conhecimento

Biblioteca comunitária no Jd. Fontális, zona norte da capital: uma parceria entre moradores e o Bê-a-Bá do Cidadão
Biblioteca comunitária no Jd. Fontális, zona norte da capital: uma parceria entre moradores e o Bê-a-Bá do Cidadão

A política praticada no  Brasil assume cotidianamente uma postura combativa, fora do âmbito do debate saudável: são trocas de acusações e denúncias, lutas acirradas pelo poder, comentários raivosos e intolerantes, simplificações maniqueístas, discussões sobre qual partido é menos corrupto, etc.

Esse ambiente hostil acaba por afastar muitas pessoas de toda a forma de política e contribui para a propagação da desinformação e do alarmismo, que em graus extremos dá origem a paranóias como aquelas sobre golpes comunistas planejados e executados nos bastidores do Governo.

Entretanto, existem aqueles que preferem encarar a política de outra forma, longe do foco das câmeras de TV e dos comentários na internet. Pessoas comuns que se engajam no trabalho voluntário da educação política, optando por espalhar o conhecimento ao invés de semear o ódio e a rivalidade sem propósito, atuando em regiões onde a educação de qualidade é inacessível – e as noções de democracia e participação social, portanto, não conseguem penetrar.

A advogada Cynthia de Lima Krahenbuhl criou em 1998, junto com alguns colegas do curso de Direito da PUC-SP, uma organização que posteriormente se tornaria o Bê-a-Bá do Cidadão, ONG voltada para a conscientização da população a respeito de seus direitos e deveres como cidadãos.

A estratégia adotada inicialmente foi a criação e distribuição de cartilhas sobre temas como direitos do consumidor, eleições, direito ambiental e obtenção de documentos. O sucesso da iniciativa levou à criação do Projeto Direito na Escola (DNE), com uma proposta de intervenção na comunidade e uma metodologia baseada na educação participativa idealizada pelo educador Paulo Freire. Por meio do DNE, os participantes criaram em 2007 uma biblioteca comunitária no bairro Jardim Fontális, na zona norte de São Paulo.

“No começo não tínhamos equipamentos, mas conseguimos criar a biblioteca, onde por três anos tivemos aulas de inglês e de política”, conta Cynthia. Segundo ela, a motivação para este tipo de projeto vem da paixão que o envolvimento traz: “É um trabalho importante, pelo qual todo mundo se apaixona. Mostramos que tem outras pessoas correndo atrás de melhorias, incentivando outros canais de comunicação com a política”.

Sentimentos semelhantes motivam Sonia Barboza, empresária aposentada de 73 anos. Ela trabalha voluntariamente como diretora no Voto Consciente, uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) que ministra cursos, palestras e oficinas no intuito de incentivar a participação política das pessoas, e também fiscaliza a atuação de deputados e vereadores na Assembleia Legistalativa e na Câmara Municipal.

“O que me motiva é fazer algo de bom pelo Brasil, pelo meu Estado, pela minha cidade. Saber que estou fazendo o bem de alguma forma, ajudando a melhorar a situação, ajudando as pessoas a votarem melhor, a entenderem a política”, explica Sonia, que coordena uma equipe de voluntários responsáveis pela fiscalização na Câmara de São Paulo.

Obviamente existem dificuldades no caminho destas pessoas e grupos. As mais comuns são relacionadas à estrutura, principalmente quando a atuação acontece numa região mais pobre, onde faltam equipamentos adequados e lugares para a realização das aulas. Outro empecilho é conseguir voluntários com tempo disponível para participar ativamente dos projetos.

“Já pensamos em extinguir o Bê-a-Bá por causa da falta de tempo dos voluntários”, afirma Cynthia. Até por isso, as organizações não costumam exigir nenhum tipo de qualificação profissional dos voluntários, apenas boa vontade: “Nós queremos cidadãos, não importa quais”, define Sonia Barboza.

Também existe a dificuldade de falar sobre política com pessoas que não foram apresentadas aos seus conceitos mais básicos. “Aqueles que vivem com dificuldades financeiras têm uma visão privada da vida, dizem que precisam se preocupar em comprar o pão em primeiro lugar. Para eles, a política é algo distante, que só aparece no dia da eleição”.

Sônia acredita que o problema está na falta de política nas escolas, e afirma que “o brasileiro é muito pouco politizado. Em geral, as pessoas não sabem nem o básico do tema. Temos de explicar desde o começo”.

Entre as críticas mais comuns estão aquelas a respeito das intenções das organizações quando estas se propõem a falar sobre política. Existe a desconfiança a respeito de partidarismo e doutrinação por parte delas, e por isso tanto o Bê-a-Bá quanto o Voto Consciente fazem questão de enfatizar sua rejeição a ligações com políticos ou partidos, além de conteúdo ideológico.

Já Carolina Freitas, advogada de 23 anos, possui um discurso bem menos moderado. Ela faz parte do grupo UNEafro – movimento criado em 2000 que atua nas regiões periféricas de São Paulo por meio de cursinhos pré-vestibulares e reúne diversas pessoas ligadas à luta contra o preconceito étnico, sexual ou de gênero –  e acredita que as acusações de doutrinação são um modo de “as forças da direita deslegitimarem os movimentos sociais.

O trabalho militante que é feito pelos núcleos não busca dialogar com esse conservadorismo, e sim com as comunidades que abraçam o projeto político”. Ela faz questão de enfatizar que os envolvidos com os projetos da UNEafro não são voluntários, mas militantes, envolvidos com uma causa política – no caso de Carolina, que trabalha no núcleo da COHAB II em Itaquera, a ruptura com o sistema capitalista e opressor.

Adotando uma postura mais ou menos radical, mas sempre se voltando para a educação dos mais jovens e necessitados, esses cidadãos desconhecidos ajudam a propagar um visão diferente da política com a qual a sociedade está acostumada – uma política no seu sentido mais pleno, de união para discussão de idéias e ações que possam melhorar de alguma forma a vida nas cidades.

Para mais informações, acesse os sites:

A empresária aposentada Sonia Barboza atua na fiscalização de políticos na Câmara de São Paulo
A empresária aposentada Sonia Barboza atua na fiscalização de políticos na Câmara de São Paulo