Pois até mesmo Deus, depois de seis árduos dias de trabalho, repousou para a eternidade.

Escolhemos Paul Lafargue como o próximo entrevistado em “Conversas com Escritores Mortos”. Lafargue escreveu, em 1880, O Direito à Preguiça. Mas, mesmo que já tenha mais de um século de idade, o livro tem uma estranha atualidade. Que era genro de Marx, isso não vem ao caso. Lafargue tinha que ser francês, claro, para quem o ócio é uma virtude a ser perseguida. Seu livro foi uma resposta a um outro que proclamava o Direito ao Trabalho.
Monsieur Lafargue, seu livro Direito à Preguiça foi como resposta a um outro que proclamava o direito ao trabalho. Isso nos leva a crer que o senhor não aprecia muito o trabalho. É isso mesmo?
Certamente.A nossa época é, dizem, o século do trabalho; de fato, é o século da dor, da miséria e da corrupção. O trabalho é o mais terrível flagelo que já atacou a humanidade.
Entretanto, muitos são viciados nele.
Sim! Sim, e é aí que reside o problema. A paixão cega, perversa e homicida pelo trabalho transforma a máquina libertadora em instrumento de sujeição dos homens livres: a sua produtividade empobrece-os.
Como assim?
Consideremos a Revolução Industrial – introduzam o trabalho de fábrica e adeus alegria, saúde, liberdade; adeus a tudo o que fez a vida bela e digna de ser vivida.
Então é mais proveitoso viver no ócio?
Sim, visto que o trabalho é a causa de toda a degenerescência intelectual, de toda a deformação orgânica. Comparem o puro-sangue das cavalariças de Rothschild, servidos por uma criadagem de bímanos, com a pesada besta das quintas normandas que lavra a terra, carrega o estrume, que põe no celeiro a colheita dos cereais.
Hmmm…
Os filósofos da Antiguidade, por exemplo, ensinavam o desprezo pelo trabalho, essa degradação do homem livre; os poetas cantavam a preguiça, esse presente dos Deuses.
Hmmm…
Além disso, há um provérbio espanhol que diz: “Descansar es salud”, ou seja, “Descansar é saúde”.
Concordo plenamente. Agora, muitos alegam que o trabalho é essencial na construção do caráter e que Deus protege os trabalhadores…
Deus protege os trabalhadores?! Ora essa, pobre Deus, que bobagem lhe atribuem! Deus, o velho barbudo e rebarbativo, deu aos seus adoradores o exemplo supremo da preguiça ideal; depois de seis dias de trabalho, repousou para a eternidade.
Quais seriam, Monsieur Lafargue, os direitos da preguiça?
Os direitos da preguiça são milhares de vezes mais nobres e sagrados do que os tísicos Direitos do Homem; que sejam proclamados! Que as pessoas se obriguem a trabalhar apenas três horas por dia, a mandriar e a andar no regabofe o resto do dia e da noite!
Devemos ser preguiçosos o tempo inteiro?
Sejamos preguiçosos todo o tempo e em tudo, exceto em amar e em beber, exceto em sermos preguiçosos.
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