A primeira vida de Angela Merkel

Um livro novo mostra que a chanceler alemã teve uma ligação com o comunismo maior do que costuma dizer.

Ontem (esq) e hoje
Ontem (esq) e hoje

Quais as origens de Angela Merkel? Como construiu Angela Merkel o seu pensamento político? Tal como os outros europeus, os alemães fazem frequentemente estas perguntas. A poucos meses de distância das eleições de setembro, uma biografia procura a chave do sucesso da chanceler na sua juventude na Alemanha Oriental.

O texto abaixo  foi publicado no site Presseurop.

Os jornalistas Ralf Georg Reuth e Günther Lachmann publicaram esta semana, na Alemanha, Das erste Leben der Angela M. (A primeira vida de Angela M.).

O livro traz novos elementos sobre as ligações da chanceler com a ditadura comunista da antiga RDA, Alemanha Oriental.

Refutando as afirmações de Angela Merkel de que sempre desaprovou pessoalmente o regime socialista na Alemanha Oriental, os autores pensam poder demonstrar que o seu papel no país foi mais complexo e menos lisonjeiro para ela.

Segundo as versões correntes, ela se esquivou à doutrinação ideológica e sempre sonhou com uma democracia que unificasse a Alemanha, tendo ultrapassado os anos do comunismo graças a uma espécie de exílio interior.

Esta lenda baseia-se sobretudo na ideia de que o seu meio familiar protestante – Angela Merkel é filha de um sacerdote – a teria poupado às tentações e às ilusões da doutrina socialista.

No entanto, um exame mais profundo do contexto deixa claro o envolvimento de alguns teólogos protestantes, entre os quais o seu pai, no regime da Alemanha Oriental.

Angela Merkel nasceu em 17 de julho de 1954, em Hamburgo, como Angela Kasner. O seu pai, Horst Kasner [que, em 1954, partiu com a família e foi instalar-se na zona de ocupação soviética], fez parte de um grupo de teólogos através dos quais, sob a orientação dos soviéticos, os dirigentes da RDA pretenderam aplicar a sua concepção política da Igreja.

Tais teólogos, que consideravam o socialismo uma alternativa real ao capitalismo ocidental, fundaram, em 1958, em Praga, uma organização cristã internacional denominada Conferência Cristã da Paz. O pai de Angela Merkel acabaria ficando muito próximo do poder estabelecido.

É certo que Horst Kasner se foi distanciando progressivamente da linha oficial dos dirigentes da Alemanha Oriental, a partir de 1970.

Ainda assim, Angela Merkel cresceu numa família na qual a teologia e a política se misturam e na qual o domínio político era associado à busca de um ideal socialista.

Ao contrário de muitos outros filhos de sacerdotes, Angela Merkel não tentou eximir-se à participação nas organizações populares do Partido Socialista.

Angela Kasner estudou Física na Universidade Karl Marx de Leipzig. Todos os que frequentavam este estabelecimento tinham garantida uma carreira científica.

Foi na Universidade de Leipzig que ela entrou, pela primeira vez, em contato com os círculos comunistas reformadores.

Alguns elementos levam a crer que, na juventude, Angela Merkel era favorável a um socialismo democrático, numa Alemanha Oriental independente, e que nem sempre preconizou a unificação.

A nova luz que o livro recém-lançado traz sobre a “primeira vida” da chanceler destaca características que nos são familiares: espírito realista, capacidade de manobra e calculismo frio.

Desde a época da Alemanha Oriental Angela Merkel tem se movimentado no seio das estruturas existentes e em conivência com elas, sem se deixar levar por utopias e sem nunca perder de vista a sua própria carreira.

Ela era integrante da Aliança pela Alemanha, a coligação de partidos conservadores que viria a ganhar as eleições de março de 1990 para o Parlamento da Alemanha Oriental.

Nessa altura, o homem forte entre os alemães orientais era Lothar de Maizière. Ele a nomeou para o cargo de porta-voz adjunta do Governo, no interior do qual as suas competências foram reconhecidas.

Segundo escreveu uma publicação política naqueles dias, a jovem Angela Merkel conseguiu, “graças à sua inteligência e à sua confiabilidade, construir uma reputação que poderá levá-la às mais altas funções”. Isso viria a acontecer.

Quando, reunificada a Alemanha, ela ingressou na União Democrata Cristã, seus antigos chefes chamaram a atenção do chanceler Helmut Kohl para Angela Merkel.

Kohl, o grande líder da reunificação, foi imediatamente conquistado pela filha do pastor luterano.

Terminava aí a primeira vida de Angela Merkel.