“A questão não é de conveniência, é de legalidade”: a arrogância de Dallagnol explica a queda da Lava Jato

Vladimir Aras e Deltan Dallagnol, da Lava Jato

A Lava Jato é uma história pedagógica sobre a arrogância de um bando que se achava enviado de Deus para limpar a Terra dos ímpios.

A última matéria do Intercept, em parceria com a Pública, escancara a colaboração ilegal com o FBI.

Todas as acusações de que isso era teoria conspiratória caem por terra, portanto — como fez o colunista isentão e insosso da Folha Celso Rocha de Barros quando Lula levantou essa lebre.

Um diálogo merece destaque. É entre o chefe da operação — formalmente, já que o capo de fato era Sergio Moro — e o colega Vladimir Aras.

Aras alerta Dallagnol para o que ele estava fazendo e é rechaçado com um desprezo disfarçado de contemporização e bonomia.

Reproduzo aqui o trecho:

“Nosso parceiro preferencial para monitorar pessoas tem sido o DHS, mas podemos trabalhar com o FBI também. Quanto antes tivermos os dados, melhor”, explica Aras, referindo-se ao Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS, na sigla em inglês).

Aras prossegue explicando que o pedido de extradição teria de passar pelo DEEST, o Departamento de Estrangeiros do Ministério da Justiça, além do Ministério de Relações Exteriores, “um parceiro importante”.

“Não é bom tentar evitar o caminho da autoridade central, já que, como vc sabe, isso ainda é requisito de validade e pode pôr em risco medidas de cooperação no futuro e a “política externa” da PGR neste campo”, explica Vladimir.

“O que podemos fazer agora é ajustar com o FBI e com o DHS [Departamento de Segurança Interna dos EUA} para localizar o alvo e esperar a ordem de prisão, que passará pelo DEEST. Podemos mandar simultaneamente aos americanos”, ele prossegue. Em resposta, Deltan é direto.

“Obrigado Vlad por todas as ponderações. Conversamos aqui e entendemos que não vale o risco de passar pelo executivo, nesse caso concreto. Registra pros seus anais caso um dia vá brigar pela função de autoridade central rs”, escreveu, deixando no ar a sugestão para que Aras se ocupasse do assunto se um dia comandasse o MPF ou o Ministério da Justiça.

“E registra que a própria PF foi a primeira a dizer que não confia e preferia não fazer rs”. Vladimir insiste: “Já tivemos casos difíceis, que foram conduzidos com êxito”.

“Obrigado, Vlad, mas entendemos com a PF que neste caso não é conveniente passar algo pelo Executivo”. Vladimir responde que “a questão não é de conveniência. É de legalidade, Delta. O tratado tem força de lei federal ordinária e atribui ao MJ a intermediação”.

Essa é a frase-chave: “a questão não é de conveniência. É de legalidade”.

Se fosse o que diz ser, Deltan Dallagnol teria entendido o recado simples e grave e recuado.

Optou não apenas pela conveniência, mas pelo jeitinho, pelo atalho. A regra moral não é diferente da dos corruptos que os filhos de Januário declaravam perseguir. 

Aras, primo do PGR Augusto, não deu um passo adiante e denunciou. Não era inocente.

Queria que Deltan se candidatasse em 2018 e tirasse Gleisi Hoffman, hoje deputada pelo PT, e Roberto Requião, do páreo.

Deixou a Lava Jato em fevereiro deste ano. DD continua firme e vai afundar com o navio.  

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