A reação ao golpe ainda não tem povo. Por Moisés Mendes

Bolsonaro | Sérgio Lima/AFP/02-01-2019

Quase todas as manifestações dos contrariados com a ameaça de golpe são protocolares. As exceções são, apenas pelo tom mais alto, como sempre foram, as que partem das esquerdas.

Não há variação relevante na retórica e na capacidade de dizer e fazer algo mais contundente. Porque falta às esquerdas o elementar numa hora dessas, a vontade de ação do povo.

O povo saiu do Carnaval exausto de tanto protesto nas escolas de samba, nos blocos, nos trios. Mas vá contar com o povo para protestos mais consequentes. Por enquanto, parece que não dá. É a realidade que incomoda as esquerdas desde antes do golpe de agosto de 2016.

O que o Brasil pensa de Bolsonaro já foi dito tantas vezes que há cansaço também com a repetição. Bolsonaro já foi alvejado por todo tipo de adjetivo. Já disseram o que é preciso dizer e como agir em defesa das instituições. Sobram verbos e adjetivos.

É possível antecipar, a cada crise, as frases feitas dos que reagem e são quase sempre os mesmos. Os que produzem os panos, os que passam os panos, os que pedem panos emprestados e os que, como minoria, tentam rasgar os panos.

Bolsonaro sabe que pode até distribuir um vídeo com a convocação para o dia 15, para que seu gesto funcione como teste. Poderia ter terceirizado a tarefa, para eliminar riscos. Mas Bolsonaro não avalia riscos como o político comum acha que deve avaliar.

O vídeo foi passado adiante porque até a ideia do golpe funciona como trollagem. Bolsonaro sabe que a oposição (e os que se aliarem às reações, como Fernando Henrique) não conta com o que ele ainda tem.

Bolsonaro dispõe da fidelidade de pelo menos 20% do eleitorado e imagina que esse contingente pode funcionar por enquanto nas redes sociais como claque da ideia de golpe. Dependendo do teste, ele pode avançar mais um pouco.

Bolsonaro sabe que os indignados não conseguem dimensionar sua base popular. Acham que ainda contam com a sensatez das instituições. Mas não inspiram e não mexem com o povo.

Falta às esquerdas daqui o que sobra no Chile. Assustar, meter medo, incomodar e ameaçar derrubar. Mas com a fúria das ruas, mesmo com repressão.

Anunciam no Chile que as manifestações de março serão as mais grandiosas desde o começo dos protestos, em outubro. E que Sebastián Piñera, hoje com apenas 6% de aprovação, não resistirá em meio à campanha do plebiscito que decidirá pela convocação ou não de uma Constituinte.

Aqui, a última grande manifestação contra um governo foi a marcha contra Michel Temer, na noite da divulgação da conversa do “tem que manter isso aí” com Joesley Batista.

Foi no 17 de maio de 2017.O povo correu às ruas em todas as capitais, porque achou que derrubaria o habitante do Jaburu. Não derrubou, e no dia seguinte os que foram de novo às esquinas, para repetir a dose com mais força, encontraram-se com meia dúzia de amigos. Foi trágico.

Desde então o povo dito progressista só promove aglomerações em redes sociais, feiras de produtos orgânicos, marchas da maconha, paradas gays e outras manifestações identitárias. É a realidade. É o drama que constrange e consome as esquerdas.

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