A reeleição e o desprezo renovado à educação

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É unanimidade e, contrariando Nelson Rodrigues, não é burra. Educação é a prioridade para o desenvolvimento do cidadão e, por consequência, de todo o seu entorno, sua família, sua cidade, seu país, seu planeta.

Onze entre dez pessoas entendem assim. Doze entre entre dez políticos alegam acreditar o mesmo. Bravata. Ou estelionato eleitoral, se preferir.

Nesta semana o governo Alckmin anunciou o corte pela metade do número atual de vagas do programa Vence, de ensino técnico, “em razão da rearticulação das ações governamentais para a gestão 2015-2018”. É o famoso jargão tucano agora com amplo sentido. A frase rebuscada significa não apenas corte de verbas como confirma que educação não é prioridade. Ocorreu uma “rearticulação” e ela foi para trás na fila.

Ainda durante a campanha no ano passado, Geraldo Alckmin afirmou que iria quase dobrar a amplitude do programa Vence, que atendia 65 mil estudantes. “Pretendemos elevar o número de vagas para 120 mil”. Não o fez, e fez pior.

Mantido o ritmo tradicional (sem contar com a promessa do governador), 20 mil vagas eram abertas por semestre e assim foi também no início deste ano. Com um documento da Secretaria de Educação do Estado informando que metade precisaria ser cortada, 10 mil estudantes terão suas inscrições canceladas e serão dispensados e seus sonhos adiados. Por que?

Não é exclusividade de Alckmin, contudo. O governo Dilma também traça novas diretrizes para o FIES (Fundo de Financiamento ao Estudante) que acarretarão em retração no número de beneficiários. Só estudantes que não zerarem na prova de redação e obtiverem pontuação maior ou igual 450 pontos poderão receber o financiamento. Antes não havia esse condicionante, bastava ter prestado o Enem.

Parece justo e comungante da meritocracia? Mas como exigir esse desempenho quando se tem um ensino público da qualidade do nosso? A medida se assemelha com a de uma empresa que abra vagas para primeiro emprego e ao mesmo tempo exija que o candidato possua experiência. As instituições de ensino universitário  acreditam que o real fator motivador é um corte no volume de financiamento.

Os resultados obtidos no último Enem deveriam servir de baliza para os governantes. De um universo de 5,9 milhões de alunos, só 250 tiraram a nota máxima em redação. E 529 mil tiraram zero! Quando mais de meio milhão de estudantes tira zero numa prova, alguma coisa está muito errada com o ensino.

A prova de redação por si só traz polêmica ao debate pois é sabido que parte das instituições privadas só utilizam a parte “objetiva” do Enem em seus processos de seleção, o que faria com que alunos sequer se dessem ao trabalho de dedicarem-se a uma questão “subjetiva” (dos 529 mil que zeraram, a maior parte – 53% – nem se deu ao trabalho de preencher uma única linha) que em anos anteriores teve sua forma de avaliação ridicularizada ao conceder boas notas a estudantes que haviam inserido receita de Miojo ou um trecho do hino do Palmeiras como forma de “encher linguiça”.

Mas então vamos mirar a outra turma, aquela que alcançou nota máxima. Constatou-se que a paixão pela literatura era uma caraterística comum entre aqueles alunos. E nem precisam ser os clássicos. A maioria era fã de séries como Harry Potter e similares. O importante é que se tratava de leitores e aí retornamos ao problema anterior: a leitura é incentivada na base? Então como exigir que alguém corresponda na hora de escrever?

A educação deve ser prioridade. Ponto. Se há necessidade de cortes no orçamento, o ensino deveria ser o último da fila, se é que deveria entrar nela. Mas essa não é a realidade por aqui. E infelizmente essa é uma visão ambidestra na política. Triste o país que sobrevive assim.

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