A regência de Mourão nos daria um governo talvez menos bizarro, mas não melhor. Por Luís Felipe Miguel

O presidente Michel Temer e o vice-presidente, general Mourão Foto: Evaristo Sá / AFP

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Um mês se passou e a inépcia do ex-capitão para governar mostra-se gritante. Não se trata só do direitismo desvairado: é incapacidade de entender as decisões que precisam ser tomadas, de antecipar consequências de ações, de manter a compostura.

Uma velha crítica à competição eleitoral, em geral mobilizada em chave elitista, diz que as qualidades necessárias para ganhar uma eleição e as qualidades necessárias para governar têm muito pouco em comum. Bolsonaro serve como ilustração extrema. No cenário de uma população imbecilizada, massiva campanha de desinformação, produção de pânico moral e classes dominantes apavoradas com a possibilidade de vitória de algum candidato de centríssimo-esquerda, ele tornou-se uma opção competitiva. Mas governar está muitos furos acima de suas possibilidades.

O movimento para que Mourão – em nome de uma junta militar – tome as rédeas do governo parece forte. A entrevista dele hoje, n’O Globo, é significativa. O general se mostra “reinventado”, como se diz por aí. Tornou-se um poço de moderação, diálogo e redução de tensões. Nas entrelinhas, deixa claro que é ele que é capaz de conduzir a nau evitando maiores intempéries.

Na resposta mais surpreendente, se diz favorável à legalização do aborto, o que revela uma vontade de se distanciar dos setores mais medievais do governo. (Na resposta anterior, Mourão se tinha visto constrangido a uma defesa protocolar da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. Com a posição sobre o aborto, marcou inteligentemente uma diferença.)

Para que Jair aceite a posição de rainha da Inglaterra, limitando-se a brincar de arminha e assinar os documentos, é provável que ofereçam vista grossa para todos os malfeitos do clã. A lojinha do Rio pode funcionar normalmente e ninguém fala mais nisso. Sérgio Moro, que (como bem definiu The Intercept) tornou-se um “soldado raso do bolsonarismo”, dissiparia o que resta de sua espúria credibilidade para avalizar o arranjo.

Os ministros mais folclóricos, como Damares Alves e Ernesto Araújo, seriam provavelmente substituídos. Ricardo Vélez Rodríguez, que completa o trio dos destrambelhados mais ostensivos, talvez tenha chance de ficar como uma sub-rainhazinha da Inglaterra no MEC, que já está mesmo coalhado de militares. E um governo mais razoável faria talvez acenos à opinião pública, interna e externa, mudando parte de sua composição – por exemplo, tirando o criminoso ambiental do Ministério do Meio Ambiente.

Mourão pode sonhar com tal passo porque é legítimo representante da nova elite militar brasileira – que continua tão autoritária como sempre, mas é cada vez mais mercadista e entreguista. Ou seja, ele conta com o apoio dos grandes interesses econômicos, cuja prioridade é naturalmente a agenda de desnacionalização da economia, redução das políticas sociais e desproteção do trabalho.

O nome que encarna tal projeto é o de Paulo Guedes, cuja permanência como czar da economia não parece ameaçada em nenhum cenário. Ele é poupado pela imprensa, mas é tão despreparado quanto Vélez, Araújo ou Damares. Não tem conhecimento básico sobre o cargo – não sabia sequer o que era a lei de diretrizes orçamentárias. Não entende que ocupa uma posição em que precisa prestar contas à sociedade, como mostram suas respostas agressivas a perguntas de jornalistas. Não sabe negociar; na verdade, como o fundamentalista (de mercado) que é, recusa qualquer negociação e é deliberadamente cego a qualquer argumento que contrarie seus dogmas sagrados.

A regência de Mourão nos daria um governo talvez menos bizarro, mas não um governo melhor.

 

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