A ridícula capa da Veja SP é tudo o que o nordeste NÃO É. Por Nathalí Macedo, da capital Salvador

No Nordeste da Veja SP não existem negros

As definições de vergonha alheia foram atualizadas pela capa da semana da Veja São Paulo, “A capital do nordeste.”

Cada detalhe da composição – afora a notória cafonice – reflete uma imagem do nordeste e dos nordestinos que parece não ter sido atualizada desde Vidas Secas: uma parede cor de pau-a-pique (afinal, ainda não temos aqui casas de alvenaria), meia dúzia de nordestinos brancos que ganharam dinheiro em São Paulo e cactos – muitos cactos – pra lembrarem sertão, que lembra seca, que lembra nordeste na caricatura sulista/sudestina – e isso me lembra o quarto com tema “nordeste” do Big Brother Brasil, repleto de cactozinhos e xilogravuras, as únicas coisas que o pessoal da cenografia da globo conhece do nosso pedaço de paraíso.

A estética estereotipada e visivelmente preguiçosa da capa da Veja SP ainda não é – por mais incrível que possa parecer – o mais problemático nessa capa, provavelmente pensada por paulistanos que nunca tiveram o privilégio de pisar no nordeste.

Nem o título “capital do nordeste”, embora eu tenha a impressão de que, acaso fosse possível que uma região inteira tivesse apenas uma capital, esta capital estaria geograficamente localizada nessa região, e não fora dela.

O pior é a ideia velada (pero no mucho) de que nordestinos precisam sair do nordeste para serem bem-sucedidos.

Essa ideia está aliás também intimamente vinculada ao estereótipo de um nordeste miserável e sem perspectivas de crescimento – ideia tal tão enraizada em nós a ponto de muitos de nossos artistas mais talentosos da atualidade sentirem-se mesmo pressionados a abandonarem sua terra sob pena de não terem seu trabalho valorizado.

“São Paulo é um berço cultural”, dizem, se despedindo da terra de Raul Seixas e Jorge Amado em busca de um horizonte onde seja possível, quem sabe, viver melhor, e acabam se tornando por vezes o “paraíba” pagando dois mil de aluguel em 10 metros quadrados, e quem, afinal, poderá culpá-los?

O que eles muitas vezes não sabem – na maioria das vezes, eu diria – é que a São Paulo construída em grande parte pelos nordestinos não nos pertence, e que a maioria de nós ainda é, nessas terras distantes, apenas os paraíbas mão-de-obra barata.

Os “nordesters” bem-sucedidos da capa da veja são por óbvio exceção – porque se acaso não fossem, nossa cultura seria vista e respeitada, ao invés de descaradamente caricaturada em uma capa cafona.

Demistificar o estereótipo do nordeste vidas secas é a obrigação cívica de cada nordestino orgulhoso de seu pertencimento: apoiando artistas nordestinos, disseminando a cultura nordestina, afirmando nosso bairrismo saudável (e necessário) nas redes sociais e sobretudo rindo na cara de capas como esta.

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