A Rolling Stone americana acertou ao dar a capa com Jahar Tsarnaev

A revista está apanhando sem dó num show de hipocrisia, mas fez bom jornalismo.

Na capa
Na capa

Uma polêmica selvagem está acontecendo nos Estados Unidos em torno da última edição da revista Rolling Stone. Ela traz na capa a foto de um dos irmãos Tsarnaev, o sobrevivente  Jahar (ou Dzhokhar), com a chamada “The Bomber”.

Bancas avisaram que vão boicotar. O prefeito de Boston escreveu uma carta aberta expressando sua indignação. Mais de 10 mil comentários, a imensa maioria de desaprovação, foram deixados na página da RS no Facebook. A ultraconservadora Fox chamou a publicação de criminosa (se você tem dúvida sobre algum assunto, veja o que pensa a Fox e opte pelo contrário).

A reação forçou os editores a soltarem um comunicado oficial. “O fato de Dzhokhar Tsarnaev ser jovem, e parte do mesmo grupo de muitos de nossos leitores, torna ainda mais importante que examinemos as complexidades desse assunto e tentar uma compreensão mais completa de como uma tragédia destas ocorre”.

O detalhe mais importante: ninguém leu a matéria.

Dada a repercussão em torno do retrato, ela acabou sendo publicada online. A revista está correta. A reportagem, longa, apurada ao longo de meses e bem escrita, tem o padrão da velha Rolling Stone — que está morrendo, mas ainda dá seus suspiros. Não é elogiosa ao personagem, mas não o poupa. Trata com complexidade um tema complexo. É absolutamente relevante. É polêmica. Ajuda a pensar.

A foto foi acusada de ser “glamorosa”. Na verdade, é, talvez, uma escolha pouco inspirada. Já tinha aparecido no New York Times e no New York Post. Apareceu, na verdade, em toda a rede nos últimos meses. O ultraje em torno do retrato é hipócrita. Por que, de uma hora para outra, teria se tornado abominável e sensacionalista? Há uma grande história a ser contada: como um jovem comum terminou por armar um atentado terrorista.

A alegação de que as razões são comerciais é risível. Ela tem de vender. Deu destaque a um assunto importante e que rendeu uma grande peça de jornalismo. Se der tudo certo, vai dar lucro. Se ninguém comprar, um abraço.

Mais do que isso, num mundo em que revistas definham minuto a minuto, segundo a segundo, conseguiu ser comentada, criticada, elogiada, falada. Ainda que seja na Internet.

 

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