A segurança do metrô de SP tem de responder pela morte do ambulante. Por Mauro Donato

Agiram livremente
Agiram livremente

 

Luiz Carlos Ruas tinha 54 anos, vinte deles trabalhando como vendedor de água, refrigerante, biscoito e outras guloseimas em sua barraquinha instalada em frente ao terminal Pedro 2º. Trabalhava de segunda a segunda, tanto que estava na labuta em plena noite de natal.

Naquela noite, ao perceber que duas travestis estavam fugindo das agressões de dois homens, resolveu interceder. Segundo testemunhas, Luiz Carlos Ruas, conhecido como ‘Índio’, teria dito aos ferozes homofóbicos: “Não faz isso com o rapaz”. O rapaz em questão era a travesti conhecida como ‘Brasil’ que havia gritado para Índio durante a correria: “Índio, estão me batendo”. A partir daí as agressões se voltaram contra ele.

Espancado com socos e chutes durante 18 segundos, Luiz Carlos Ruas ficou desmaiado no chão por 51 segundos até que os valentões retornaram e o agridiram por mais 23 segundos. Mais de um minuto e meio sem que nenhum segurança do Metrô aparecesse. Quase dois minutos de descaso, registrado pelas câmeras.

Índio foi levado ao hospital mas não resistiu e faleceu.

O Metrô disse o seguinte: “Mais de 1.100 agentes de segurança atuam sempre em duplas e podem estar uniformizados ou à paisana. As duplas trabalham por meio de rondas em trens, plataformas e acessos das estações. Os seguranças se deslocaram imediatamente para a estação Pedro 2º, prestaram os primeiros-socorros e conduziram a vítima para o pronto-socorro Vergueiro. O Metrô colabora com a polícia para o esclarecimento do crime”.

Se contabilizado também o tempo em que toda a perseguição às travestis – que começou ainda na plataforma e se estendeu para o saguão das catracas –  e somado aos 1’32” minuto de espancamento do pobre vendedor, teremos longos e preciosos minutos sem que nada fosse feito para evitar o desfecho trágico. Onde estavam 1.100 agentes? Não agiram por que tudo começou envolvendo travestis? Ou foi por medo?

É curiosa a atuação da segurança do Metrô. Quando é para reprimir franzinos adolescentes secundaristas, daí são valentões. Quando é para evitar ‘bagunça’ de manifestantes do Passe Livre, daí são próativos e agridem antes mesmo de saber o porque. Se a imprensa estiver por perto registrando irá apanhar igualmente e pode ter seus equipamentos intencionalmente danificados como ocorreu com o fotógrafo André Almeida no final de 2015 na estação Sé (ele nunca foi ressarcido).

Por que contra dois pitbulls homofóbicos nada foi feito? Há uma homofobia institucionalizada no metrô? Com seus seguranças ‘gatos’ – muitos deles aliás acusados de assédio por usuárias – o Metrô adota uma postura instigante. Faz campanhas publicitárias contra o assédio mas na prática pouco ou nada faz.

A estudante de jornalismo Anna Caroline Kaptchouang já teve uma experiência nada agradável ao precisar contar com a ajuda da segurança após ser assediada por um homem dentro do vagão. Ao desembarcar na estação República ela ainda tentou perseguir o agressor. Sem sucesso, relatou o ocorrido a um segurança do metrô e precisou ouvir que aquilo havia acontecido ‘por causa de seu vestido’.

Um protesto contra a morte de Luiz Carlos Ruas está agendado na estação Pedro 2º. Quer apostar que estará cheio de seguranças?

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