A sequencia do filme da Lava Jato e a arte de transformar fracasso em fracasso com leis de incentivo. Por Miguel Enriquez

O elenco do filme da PF

POR MIGUEL ENRIQUEZ

Caso seja mantida, a já anunciada intenção de lançar até o fim de 2018 a sequência do filme “Polícia Federal- A Lei é para Todos” será mais uma  daquelas situações em que o fracasso parece ter subido à cabeça de seus responsáveis.

Apresentado como o filme nacional de maior bilheteria no ano passado pela mídia amiga, que, salvo raríssimas exceções, não poupou esforços para reforçar uma caríssima campanha promocional de marketing, a verdade é que o longa dirigido por Marcelo Antunez ao sair de cartaz deixou um rastro de frustração e prejuízos financeiros.

De acordo com o site especializado Filme B, ao todo, o filme, que foi lançado em mil salas de cinema espalhadas pelo país, atraiu 1,4 milhão de espectadores.

Trata-se de um desempenho bem abaixo da expectativa inicial dos 2 milhões de pessoas, necessárias para zerar os R$ 16 milhões empregados em sua produção por um grupo de 25 investidores, que até hoje se mantêm incógnitos.

Com essa bilheteria, é certo, o filme do produtor Tomislav Blazic está longe de repetir o fiasco de outra obra laudatória, “Real- o Plano por trás da História”, que deixou o circuito comercial contabilizando apenas 46 484 espectadores e uma arrecadação de mirrados R$ 800 mil, o equivalente a 10% dos custos de produção. Bancados, diga-se, por recursos da Lei do Audiovisual e do Proac. 

No entanto, apesar de contar com um elenco estrelado, com atores globais como Ary Fontoura, Marcelo Serrado, Flávia Alessandra e Antonio Calloni, “Polícia Federal – A Lei é Para Todos” está muito longe de ter sido o filme nacional com maior bilheteria em 2017.

Na verdade, foi o que mais atraiu público entre os lançados no ano passado, ainda assim com pouco mais de 800 cabeças acima do segundo colocado, a comédia “Os Parças”. 

Quem atraiu a maior audiência foi “Minha mãe é uma peça 2”, lançada no ano anterior, que vendeu em 2017 nada menos de 5,2 milhões de um total de 9,3 milhões de ingressos.

Longe de expressar um grande interesse pelas ações da brigada anti-corrupção da PF e do Ministério Público, o filme da dupla Antunez-Blazic tampouco se enquadra na categoria de blockbuster do cinema nacional.

Entre 2015 e 2016, é superado pelo menos por seis produções nacionais, não incluído “Os dez Mandamentos”, que teria alcançado 11,3 milhões de ingressos graças à farta distribuição de tickets feita por sua patrocinadora, a Igreja Universal.

De acordo com a Agência Nacional do Cinema (Ancine), excluído o milagre da multiplicação de ingressos promovidos pelo bispo Macedo, a maior bilheteria do cinema brasileiro em todos os tempos foi “Tropa de Elite 2”, de José Padilha, diretor da não menos polêmica série lavajatista “O Mecanismo”, do Netflix.

A segunda parte da saga do capitão Nascimento, lançada em 2010, atraiu 11,1 milhões de espectadores, oito vezes mais do que o panegírico de Antunez.

“Polícia Federal”, lançado com estardalhaço em setembro do ano passado em Curitiba com a presença dos delegados e agentes federais e dos juízes Sergio Moro Marcelo Bretas, não apenas não figura entre os 100 filmes com audiência superior a 2 milhões de assistentes como aparece num longínquo 151º lugar entre os campeões nacionais de bilheteria.

Em todo o caso, a despeito do malogro da estreia, o produtor Blazic e o diretor Antunez vêm se movimentando desde o começo deste ano para viabilizar a sequência.

Além de centrar seu foco na corrupção do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral e das obras para a Copa do Mundo de 2014, Blazic e Antunez pretendem incluir o escândalo gerado pelo grampo do empresário Joesley Batista, envolvendo Michel Temer, e a prisão do ex-presidente Lula.

Não satisfeitos, prometem uma terceira versão e até a possibilidade de gerar mais filhotes da franquia no futuro. “Enquanto a Lava Jato for assunto e o povo estiver gostando, a gente vai contando essa história”, afirmou Antunez no lançamento da série.

A exemplo do  filme de estreia, pode faltar público para as continuações. Mas uma coisa é certa: a retaguarda material está mais do que garantida.

A Superintendência da Polícia Federal no Paraná, está aí mesmo para ceder instalações para os cenários, uniformes, armamentos, helicópteros, viaturas e prestar consultoria à produção do filme.

E, aparentemente, o grupo de 25 mecenas anônimos não se furtará a financiar a novas tentativas da dupla Antunez- Blazic de mostrar aos brasileiros que a lei é para todos.

Em todo o caso, escaldados pelo prejuízo do ano passado, os produtores resolveram rever a posição de não apelar para o apoio das leis de incentivos, que foi utilizado como um diferencial de marketing do filme.

”A gente ficou um pouco desconfortável de usar dinheiro público para poder contar uma história que, bem ou mal, esbarra na política”, chegou a afirmar Antunez à época do lançamento.

A posição do diretor foi reforçada por Blazic. “Precisamos caminhar para o estabelecimento de uma indústria autossustentável”, disse o produtor. ”Um dos legados do nosso filme será o de mostrar que é possível fazer um filme de qualidade sem dinheiro público.”

Essa profissão de fé nas virtudes do financiamento privado, porém, já é história. Segundo o colunista Lauro Jardim, “Polícia Federal 2” já foi devidamente autorizada pela Ancine a captar R$ 13,7 milhões para sua produção.

Afinal, ninguém é de ferro.

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