A solidão de Hamilton Mourão e Santos Cruz. Por Moisés Mendes

Vice-Presidente da República, Hamilton Mourão e Santos Cruz. Foto: Romério Cunha/VPR

Publicado originalmente no Blog do autor:

Por Moisés Mendes

Se os generais Hamilton Mourão e Santos Cruz juntassem suas solidões, teríamos uma solidão de bom tamanho, mas que continuaria sendo apenas solidão.

Mourão e Santos Cruz não têm potência para transformar o abandono e o desprezo que enfrentam em algo de maior significado.

Mourão é um general solitário dentro de um governo de generais e oficiais de altas patentes. Santos Cruz é um general solitário fora do governo que já o acolheu e que costuma humilhar e se desfazer de generais.

Tudo o que Mourão diz sobre seu abandono dentro do governo, apesar de ser o vice-presidente, é transformado em notícia nos jornais como uma queixa verbalizada contra Bolsonaro. Só queixa e lamúria.

Tudo o que Santos Cruz diz como ex-ministro e agora crítico de Bolsonaro é o que é, a expressão de uma voz sem força que não sensibiliza nem os mais de 10 generais já expulsos do governo pelos filhos de Bolsonaro.

Mourão pode dizer, como disse nessa terça-feira, que continua ficando de fora das reuniões de Bolsonaro com os ministros. Pode dizer que se sente constrangido e isolado.

Pode se queixar, como sempre se queixa, mas não há como transformar seu lamento em alguma atitude substantiva e consequente.

Santos Cruz diz e escreve que Bolsonaro tem uma mentalidade anarquista, que testa a fidelidade do Exército com suas bobagens e que planeja mesmo um golpe, com um desfecho que talvez tenha muita violência. Mas ninguém sai em socorro de nenhum dos dois.

Bolsonaro preparou para Mourão a armadilha de empurrá-lo para a presidência do Conselho da Amazônia. O general não consegue fazer nada, se é que deseja fazer.

Bolsonaro usa Ricardo Salles como preposto da gestão de seus interesses com grileiros, desmatadores, contrabandistas, garimpeiros. Salles trabalha para Bolsonaro, que não está interessado em eleitores e política, porque há meia dúzia de votos em toda a região da floresta.

A hegemonia na Amazônia é de Salles. Ele é quem afronta com suas arbitrariedades e seus crimes a autoridade de um general vice-presidente que deveria zelar pela mata, pelos índios e pelos bichos. Mourão caiu, por imobilismo, na arapuca de ser cúmplice de Bolsonaro e de Salles.

O vice poderia representar o pensamento médio de generais que estão dentro do governo e se preocupam ao menos com a imagem das Forças Armadas destruída por Bolsonaro.

Não representa nada e está desconectado da maioria, ou não teria chutado uma bola fora ao defender, com veemência, punição para Eduardo Pazuello, em nome da hierarquia, da disciplina e do risco de anarquia nos quartéis.

Mourão parece ser mais um dissidente entre eles do que alguém que consiga atrair convergências mínimas em torno da sua solidão de general da floresta.

Santos Cruz poderia ser, mas não é, o porta-voz dos que estiveram dentro e agora estão fora do governo. É alguém que também repete queixumes e faz previsões sombrias, sem que nenhum dos colegas expulsos manifeste adesão ao que ele pensa.

Mourão e Santos Cruz são generais sem tropas. Talvez até tenham aliados na direita, com e sem farda, mas esses são silenciosos e cautelosos.

Mourão e Santos Cruz não têm poder. Não têm um soldado ou um cabo e nem mesmo um jipe.

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