
O presidente Donald Trump voltou a negar qualquer irregularidade relacionada às acusações envolvendo Jeffrey Epstein. Segundo Trump, não há evidências de que ele tenha participado da rede de tráfico sexual comandada pelo financista e a relação entre os dois teria se rompido anos antes da prisão de Epstein. Até o momento, as revelações mais recentes não produziram consequências diretas para o presidente.
Outros integrantes do alto escalão do governo também atravessaram praticamente ilesos a divulgação de mais de três milhões de páginas de documentos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. O secretário de Comércio, Howard Lutnick, segue no cargo apesar de contradições entre declarações passadas e e-mails agora tornados públicos.
Lutnick havia dito em 2025 que rompeu com Epstein em 2005 por repulsa ao comportamento do vizinho, mas mensagens indicam que ele esteve anos depois na ilha caribenha do financista. Ele também teve negócios com Epstein, mesmo após as acusações de tráfico sexual.
Situação semelhante ocorre no setor financeiro. O banco Goldman Sachs e seu CEO, David Solomon, mantiveram apoio público à diretora jurídica Kathryn Ruemmler, ex-conselheira da Casa Branca no governo Obama, apesar das críticas relacionadas a sua proximidade com Epstein, que incluíram presentes caros e encontros em hotéis de luxo. Solomon afirmou que Ruemmler é respeitada dentro da instituição. Ela, por sua vez, declarou lamentar profundamente qualquer vínculo com Epstein e disse ter enorme solidariedade com as vítimas.
Até figuras do meio científico e midiático seguem sem maiores danos. O médico e pesquisador de longevidade Peter Attia, colaborador da CBS News, apareceu em diversos e-mails trocados com Epstein, alguns com comentários considerados inapropriados.
Attia pediu desculpas publicamente, negou qualquer envolvimento criminal e afirmou nunca ter estado no avião ou na ilha do financista, nem participado de encontros sexuais.

Para analistas, o efeito relativamente limitado das revelações reflete uma mudança profunda nos padrões de tolerância a escândalos nos Estados Unidos. Em outros períodos, casos de infidelidade ou uso de drogas eram suficientes para encerrar carreiras. Hoje, dizem críticos, a polarização extrema e o histórico de controvérsias do próprio Trump criaram um ambiente de maior permissividade.
Eles citam, como exemplo, indicações controversas feitas pelo presidente, como a do ex-deputado Matt Gaetz e do secretário de Defesa Pete Hegseth, ambos alvos de acusações graves que negam.
O ex-embaixador americano e crítico do trumpismo Norm Eisen afirmou que o fluxo constante de escândalos vindos da Casa Branca normalizou a ausência de constrangimento público. Segundo ele, Trump estabeleceu um tom de desafio permanente, no qual figuras que deveriam se sentir envergonhadas preferem se fechar e resistir.
Ainda assim, algumas figuras ligadas a Epstein sofreram consequências mais duras. O ex-secretário do Tesouro Larry Summers reconheceu vergonha por suas ações e se afastou de funções públicas. Brad Karp, presidente do escritório de advocacia Paul Weiss, renunciou ao cargo alegando ser o melhor para a firma.
David Ross, ex-diretor do Whitney Museum, deixou recentemente um posto acadêmico em Nova York. Esses casos, porém, contrastam com a situação de outros nomes de alto perfil que enfrentaram apenas desgaste reputacional.
Entre eles estão o estrategista político Steve Bannon e o bilionário da tecnologia Elon Musk. Musk afirmou que o foco deveria ser a responsabilização criminal dos cúmplices de Epstein, não apenas a divulgação seletiva de documentos. Bannon, que frequentava a casa de Epstein em Nova York e chegou a planejar um documentário para reabilitar sua imagem, segue apresentando seu programa político e mantendo espaço na mídia.