A trajetória de Tatiana Sampaio, pesquisadora brasileira por trás da polilaminina

Atualizado em 24 de fevereiro de 2026 às 12:04
A bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana Sampaio. Foto: Reprodução

A bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana Sampaio, é a cientista brasileira por trás da descoberta da polilaminina, molécula desenvolvida em laboratório capaz de reconstruir conexões nervosas e devolver movimentos a pessoas com lesões na medula antes consideradas irreversíveis.

Carioca, formada integralmente pela UFRJ, ela construiu uma carreira dedicada ao estudo de proteínas da matriz extracelular e hoje lidera as pesquisas que colocaram o Brasil no centro de uma possível revolução no tratamento de paralisias.

A trajetória científica de Tatiana Sampaio

Tatiana Coelho Sampaio graduou-se em Ciências Biológicas em 1986, concluiu o mestrado em 1990 e o doutorado em 1992, todos pela UFRJ, onde se tornou professora ainda jovem. Também realizou pós-doutorados no exterior, na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, e na Universidade de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha.

Especialista em Bioquímica e Química de Proteínas, ela concentrou sua carreira no estudo das moléculas que dão suporte estrutural às células e influenciam sua comunicação.

Desde os anos 2000, coordena o Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, onde orienta estudantes e lidera colaborações científicas nacionais e internacionais. Aos 59 anos, a professora de histologia mantém uma rotina distante da exposição pública, sem perfis em redes sociais e dedicada principalmente à pesquisa.

A descoberta da polilaminina

O projeto que resultou na polilaminina começou no fim da década de 1990 e buscava recriar em laboratório a laminina, proteína produzida naturalmente pelo corpo que ajuda os neurônios a se conectarem. Criada a partir da placenta humana, a nova substância mostrou resultados promissores ao estimular a formação de novos “circuitos” nervosos.

Polilaminina. Foto: Zanone Fraissat/Folhapress

Em testes experimentais com oito pacientes paraplégicos e tetraplégicos, seis recuperaram algum grau de movimento, incluindo um caso emblemático de um paciente que voltou a caminhar após estar paralisado do ombro para baixo.

A substância também avançou para estudos clínicos após autorização da Anvisa, etapa que avaliará a segurança da aplicação direta na área lesionada da medula espinhal.

A inovação já gerou impactos concretos para a universidade, incluindo R$ 3 milhões em royalties — o maior valor desse tipo recebido pela UFRJ. Apesar disso, cortes de financiamento impediram a manutenção da patente internacional da descoberta.

Reconhecimento público e repercussão

A repercussão da pesquisa transformou Tatiana em referência da ciência brasileira. Durante o Carnaval do Rio, o cantor João Gomes interrompeu um show na Marquês de Sapucaí para homenageá-la diante do público: “Você é a maior celebridade que temos aqui hoje”. A cientista, no entanto, afirma que a notoriedade repentina interfere em sua rotina de laboratório.

“Na pesquisa impacta muito, eu tenho dificuldades de estar no laboratório. O status de celebridade, que não tenho buscado, e nem com o qual eu me sinta confortável. É bom saber que está sendo admirada pelas pessoas, mas é desconfortável”, disse ao comentar a exposição.

Ela também declarou que não esperava ganhar visibilidade com o trabalho científico. “Eu não tinha a expectativa de querer aparecer”, afirmou ao falar sobre a repercussão do tratamento.

Vida pessoal e dedicação à ciência

Mãe de dois filhos e responsável por acolher uma ex-aluna órfã como “filha agregada”, Tatiana vive uma rotina marcada por pedidos de pacientes e familiares que buscam na pesquisadora esperança para a paralisia.

A ex-aluna hoje participa de uma nova linha de estudos sobre possíveis aplicações da polilaminina em tratamentos contra o câncer de mama, ainda sem resultados divulgados.

Apaixonada pela biologia desde jovem, ela escolheu a carreira científica como caminho direto para trabalhar com pesquisa. Décadas depois, tornou-se a principal responsável por uma descoberta considerada um dos avanços mais promissores da medicina regenerativa brasileira.